Aldo Rebelo: Brasil e Alemanha em parceria fecunda

/ Editor: José Alfredo | Agência Rede PT Ribeirão
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Aldo Rebelo: Brasil e Alemanha em parceria fecunda

Aldo Rebelo historia as relações de amizade e cooperação entre Brasil e Alemanha e destaca a atuação de brasileiros, descendentes de alemães, que ganharam projeção internacional.

Apesar das distintas trajetórias históricas, o Brasil mantém com a Alemanha um robusto intercâmbio multidisciplinar entre homens, negócios, costumes e um fértil influxo intelectual que enriqueceu a formação social brasileira. A visita da chanceler Angela Merkel, à frente de expressiva comitiva integrada também por oito ministros de Estado, nestes dias 19 e 20 de agosto, é um elo a mais nessa cadeia geopolítica que o viajante e cronista Hans Staden, o prisioneiro dos tupinambás, começou a entrelaçar ainda no século XVI, publicando na Europa um dos primeiros livros sobre o Brasil. 

 

No rastro de Staden vieram estudiosos, vários na condição de naturalistas e professores-fundadores da Universidade de São Paulo, antecedidos ou acompanhados de dezenas de milhares de imigrantes que ingressaram no caldeirão étnico nacional já na época de Dom João VI. O fluxo engrossou no alvorecer do Império, com dom Pedro I atraindo agricultores para a região do Rio dos Sinos (RS) e, a seguir, dom Pedro II trazendo-os para Nova Friburgo (RJ). O segundo imperador, aliás, importou da Alemanha uma modernidade que muito ajudou na integração do país continental, o telégrafo elétrico, implantado no Rio de Janeiro a partir de 1852 com equipamentos de empresas daquele país.

 

A presença mais que centenária dessas companhias atesta a continuidade cooperativa da Alemanha no Brasil. A Allianz, que dá nome ao estádio do Palmeiras, é mais antiga (1904) que o clube (1914). Hoje, contam-se ao menos 1.400 subsidiárias no território nacional, e São Paulo é a cidade que mais tem empresas de origem alemã no mundo. A Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, e ele o primeiro dela na América do Sul. Estima-se que o capital alemão represente 10% do PIB industrial brasileiro, e muito tem contribuído no avanço da tecnologia e inovação.

 

Os dois países mantêm acordos de cooperação científica e tecnológica há 45 anos. O de maior repercussão foi o Nuclear, de 1975, que resultou nas usinas de Angra dos Reis (RJ), ponto alto de um audacioso programa independente de desenvolvimento de tecnologia estratégica. Incentivou o Brasil a sair do garrote polarizado da Guerra Fria e a produzir seu próprio urânio enriquecido com ultra centrífugas desenvolvidas pela inteligência nacional.

 

Na área espacial, o Brasil trabalha em três frentes principais que incluem satélites, lançadores e segmento solo. Seguindo o Programa Nacional de Atividades Espaciais, o Veículo Lançador de Microssatélites é a próxima etapa em termos de acesso ao espaço. O desenvolvimento desse veículo vem sendo realizado em cooperação com o Centro Aeroespacial Alemão – DLR. A previsão é que, a partir de 2018, o foguete orbital VLM lance em órbita, a partir de Alcântara, no Maranhão, satélites de pequenas dimensões, os minissatélites.

 

Outra cooperação que merece destaque é o projeto do Observatório da Torre Alta da Amazônia, que atende a uma preocupação global com o estudo do clima. A base é uma torre de 325 metros montada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no município de São Sebastião do Uatumã (AM), a 150 quilômetros de Manaus. Segundo os especialistas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, será possível observar de forma mais abrangente a influência da Amazônia no clima mundial e medir a emissão de gases de efeito estufa na floresta. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), que coordena o projeto com o Instituto Max Planck de Química, qualifica-o como o mais importante em andamento "para compreensão e quantificação das interações dos biomas de floresta de terra firme da Amazônia com o sistema climático global".

 

Já o projeto de cooperação na área de matérias-primas de importância econômica estratégica visa à pesquisa e fornecimento de terras raras, nióbio, tântalo e outros metais e minerais muito cobiçados, mas de difícil isolamento.  Os acordos na área de inovação tecnológica, voltados sobretudo à indústria, expandem-se pelo aumento de convênios entre a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e a Sociedade Fraunhofer, que reúne 58 institutos voltados para a Ciência Aplicada. Abrem perspectivas animadoras para o Brasil superar deficiências na competividade global.

 

Brasil e Alemanha compartilham por esse caudaloso veio bilateral uma história fecunda de negócios e ideias. A diferença de idioma jamais foi empecilho terminante para a circulação de doutrinas, a começar, para ficar nas mais antigas, pelas do reformador Martinho Lutero, do filósofo Karl Marx, do cientista-filósofo Ernst Haeckel, do jurista Rudolf von Ihering – todos com discípulos de peso, como o mestiço sergipano Tobias Barreto, pensador eclético que até escrevia em alemão para se contrapor à influência francesa, sem falar de germanófilos episódicos, como o historiador Oliveira Lima e os escritores Lima Barreto e Monteiro Lobato. Se desde a era dos Pedros fundou-se base nacional para tamanho intercâmbio, ela cresceu a ponto de se estimar que os descendentes de alemães – os Deutschbrasilianer – somam mais de cinco milhões de brasileiros, muitos de projeção internacional, como Oscar Niemeyer, Gustavo Kuerten e Gisele Bündchen. Um deles, Ernesto Geisel, atingiu a Presidência da República. Outro, o catarinense Lauro Müller, prócer da República, ocupou importantes postos, entre eles, o de governador e ministro das Relações Exteriores. Como deputado da Assembleia Nacional Constituinte, durante sessão de 22 de dezembro de 1890, Müller foi autor de emenda que incluía na Carta a mudança da Capital Federal para o Planalto Central. 

 

E, para surpresa de muitos, embora o IBGE já não faça contagem de idiomas, o alemão é dado como a segunda língua mais falada no Brasil.

 

Aldo Rebelo é ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação

aldo.rebelo@mcti.gov.br

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