Márcio Coelho: Se o artista ribeirão-pretano não morrer de COVID-19, morrerá de fome!

/ Por Agência Rede PT Ribeirão

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Márcio Coelho: Se o artista ribeirão-pretano não morrer de COVID-19, morrerá de fome!

..."No entanto, o que mais me incomoda é o silêncio da classe artística e da comunidade cultural ribeirão-pretana. Confesso não ter conseguido interpretá-lo, mas algo me diz que é falta de consciência política; receio de perder migalhas ou conivência. É isso"...

Não há dúvidas de que uma das áreas mais prejudicadas pela pandemia da COVID-19 é a área da cultura. Uma área que depende, quase que exclusivamente, de pequenas ou grandes aglomerações.

 


Segundo estudo da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos, a Abrape, 51,9% dos eventos programados para este ano, no Brasil, foram cancelados, adiados ou estão em situação incerta.

 


Segundo, João Luiz de Figueiredo, coordenador do mestrado profissional em gestão de economia criativa (como eu não gosto desse nome!) da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM, o prejuízo na área cultural, que, diga-se de passagem, corresponde a 2,6% do PIB, pode ultrapassar a casa dos R$ 100 bilhões.

 


O ponto de vista de coordenador de mestrado profissional o faz inferir que a maior preocupação deve ser impedir a falência das empresas do ramo, que ocupavam 5,2 milhões de pessoas, em 2018, de acordo com o IBGE. Esse discurso em nada difere do discurso do presidente, pois, coloca em primeiro plano a economia, notadamente, a malfadada “economia criativa”.

 


O que nos preocupa verdadeiramente é a falta de trabalho para o músico que tocava em barzinhos, agora fechados. É a impossibilidade de artesãos exporem seus trabalhos em feiras fixas ou em feiras itinerantes de economia solidária, agora proibidas para se evitar aglomerações. É a falta de trabalho para os profissionais de teatro, principalmente para aqueles que dependem de apresentações em ou para escolas. Sem falar nos artistas de rua e nos professores de música, que, em geral, não são legalmente contratados pelas escolas de música, que ficam, em média, com 50% do pagamento da mensalidade paga.

 


As empresas de eventos e os artistas nacionalmente consagrados sairão rapidamente da crise, ou será que os produtores do Rock in Rio e do Lollapalooza irão à falência por terem que adiar uma de suas edições? Assim que a situação começou a ser desenhada, Sérgio Sá Leitão correu para criar um financiamento de baixo custo para as empresas do Estado de São Paulo. Não nos causa surpresa nenhuma tal atitude ter partido daquele que decidiu macular o nome da Secretaria de Estado da Cultura, colocando-lhe o apêndice “e Economia Criativa”, termo que pode englobar desde o trabalho do artesão até o produtor de vídeo games, passando pela alta costura.

 


Na contramão daqueles mais preocupados com a dimensão econômica da cultura, o governador do Maranhão Flávio Dino saiu na frente e, já no dia 18 de março, anunciou que lançaria um edital especial para apresentações de artistas via internet, durante o surto de Coronavírus.

 

No dia seguinte, a Secretaria Municipal de Cultura do município de São Paulo lançou um edital para apresentações em prédios e casas da cidade, com vistas a contemplar 8.000 inciativas.

 


Seguindo essa linha, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Mogi das cruzes abriu um edital para a realização da Mostra Virtual de Arte: A Arte Não Esqueceu de você.

 


Já Minas Gerais, por meio do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerias, lançou o edital Redes de Conhecimento, por meio do qual pagará R$ 1.000,00 por cada uma das aulas, que serão disponibilizadas gratuitamente na internet. Neste edital, as seguintes áreas serão contempladas: gestão cultural, técnicos da cultura, designers, literatura, artes visuais, artes cênicas, dança, música, fotografia, audiovisual, história e antropologia.

 


São muitas as inciativas em todo o Brasil, desde estudos do impacto na área cultural, até soluções criativas como as apresentadas acima.

 


Certamente o leitor deve estar se perguntando: Como Ribeirão Preto está encarando a situação? Respondo: com discurso, muita propaganda e, efetivamente, com nenhuma ação, pelo menos até o momento em que escrevo esse texto (veja, ao final, propagandas da prefeitura que alterei, ao estilo “caneta desmanipuladora”).

 


No dia 19/03, compartilhei várias matérias com diferentes iniciativas para ajudar o setor cultural, no grupo de WhatsApp, do qual também faz parte a secretária de cultura do município Isabella Pessotti. Irritada com minhas cobranças, a secretária escreveu:

 

Márcio, estamos trabalhando pra isso. Não adianta soltar medidas inexequíveis e sem a prévia consulta aos órgãos responsáveis e aos artistas em grupos organizados. Já estamos em diálogo, estudando estratégias viáveis. Para a salvaguarda do artista cênico do artista de rua, do artista plástico, dos artesãos. Esse é um grupo criado para propagar eventos. As demais discussões de cunho administrativo devem ser feitas de maneira menos informal e mais responsável. Já estamos cuidando disso. Associe-se aos demais artistas e contribua com as suas indicações, todas são bem vindas. Lembrando que a administração pública opera por regramento legal, direcionar recurso pra um projeto, um edital não é abrir a gaveta e empilhar as notas. Há processos pra isso.  Contribua com ideias. Estamos avaliando possibilidades: editais para apresentações virtuais, mostra de artes plásticas online, plataformas de apresentação, várias ideias já circulam. Nos cabe avaliar viabilidade e correr em socorro da classe artística tão penalizada nesse período”.

 


Ao que contestei:

 


Isabella, o discurso é muito bonito: discussão, colegiado, coletivo, pensando etc. O momento requer urgência! Isso não começou agora. Já deveriam ter sido discutidas alternativas e, agora, elas já deveriam estar em prática. Temo que, responsavelmente, a SMC vá empurrando as necessidades da área com a barriga, como tem feito desde 2017. O que me causa espanto é o silêncio da comunidade”.

 


Foi quando ela, sem ter o que apresentar, partiu para ataques pessoais:

 


Enquanto você quarentena e desagrega a classe, estamos presencialmente na secretaria, nos expondo, coletando dados, alinhando informações para ações em socorro dos artistas pregados de trabalhar por conta do COVID 19.  Além disso, projeto de restauro do Museu do Café, projeto de qualificação de centros culturais, projeto de reforma do Arena, projeto de restauro de monumentos, projeto de livro e leitura, projeto Cultura Inclusiva, projeto do ar condicionado do Teatro Municipal estão TODOS tramitando aqui, para que a população possa usar os espaços.  Se você pretende atuar na política precisa praticar o respeito à própria classe que pretende representar. Estamos abertos a sugestões, indicativas. Ataques são dispensáveis”.

 

Confesso que fiquei sem compreender o porquê de a secretária interpretar críticas como “ataques dispensáveis” e como a cobrança por ações para aliviar o sofrimento de artistas pode ser compreendida como ato de desagregação da classe.

 


O fato é que, com uma leitura mais atenta, podemos ver que ela citou, na segunda intervenção, seis vezes a palavra “projeto”. No último ano de governo já não seria o momento de apresentar resultados, programas, editais, enfim ações, e, não, projetos? Esse tecnicismo burocrático a la Paulo Guedes pode custar caro àqueles que estão necessitando de ajuda com urgência. Não adianta fazer reuniões, dialogar com a classe, estudar, projetar, se a ajuda não chegar no momento em que o artista dela necessita! Sigamos sem dar atenção a picuinhas.

 


No dia 24/03, o Conselho de Políticas Culturais de Ribeirão Preto, que deveria se reunir, como indicado no site da SMC, toda segunda terça-feira do mês, e que não se reunia, de acordo com as atas publicadas, desde o dia 10/07/2018, publicou em sua página o seguinte texto:

 


“TRABALHADORES DA CULTURA TAMBÉM NECESSITAM DE PROTEÇÃO
O Conselho Municipal de Política Cultural e representantes dos segmentos culturais de Ribeirão Preto apresentaram no dia 23 de março, uma proposta de Edital Emergencial para a Secretaria Municipal de Cultura e Prefeitura Municipal.
A proposta indica à Secretaria que utilize recursos de eventos que não serão realizados no período de isolamento social devido à pandemia do Covid-19 para contratação de profissionais da cultura para criação de conteúdo on-line para a população.
Esta é uma forma de respaldar trabalhadores da cultura sem renda fixa já que todos os eventos culturais foram cancelados devido à necessidade de evitar aglomerações e diversos profissionais da cultura se encontram sem perspectiva de trabalho pelos próximos meses”.

 


Passados 20 dias da minha cobrança e 16 dias da apresentação da proposta do Conselho, o fato é que nada foi feito. A página do FaceBook e o site da SMC nada informa, nem ao menos esboça preocupação com os artistas da cidade. No fundo, acho que seria esperar muito de uma administração que tem como principal gestor alguém que se aliou a um projeto de governo federal que elegeu os artistas como inimigos.

 


No entanto, o que mais me incomoda é o silêncio da classe artística e da comunidade cultural ribeirão-pretana. Confesso não ter conseguido interpretá-lo, mas algo me diz que é falta de consciência política; receio de perder migalhas ou conivência. É isso.



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Márcio Coelho, secretário de Cultura do PT de Ribeirão Preto
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