Fábrica de Cultura, sim; desrespeito ao patrimônio cultural, não!

/ Editor: José Alfredo | Agência Rede PT Ribeirão
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Arte: Ana Favaretto

Fábrica de Cultura, sim; desrespeito ao patrimônio cultural, não!

"...Também sabemos que Isabella Pessotti é uma esquerdista tucanada, ex-militante da cultura, que, no momento, só pensa no seu umbigo, no seu sustento e numa maneira de agradar ao Nogueira e ao Sá Leitão, para, como bem disse o companheiro citado acima, garantir trabalho, seja na SMC, ou numa OS da vida..." Márcio Coelho

No dia 2 de agosto, o jornalista José Fernando Chiavenato denunciou, no Thathi Repórter, que a Secretaria Municipal da Cultura de Ribeirão Preto estaria acabando com a Escola de Artes Cândido Portinari.


Chocado, fui procurar entender o que estava acontecendo. Então constatei que a SMC está em vias de formalizar uma parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, para a implantação do projeto Fábricas de Cultura.


Antes de qualquer coisa, quero dizer que que projetos como o “Fábricas de Cultura” são necessários, na verdade, de suma importância, e Ribeirão Preto merece um olhar generosos para a democratização do fazer cultural. No entanto, tal projeto, de acordo com o seguinte link oficial http://www.fabricasdecultura.org.br/programa-fabricas-de-cultura/,  prevê “a cultura e a arte ajudando a reduzir a vulnerabilidade do jovem na cidade”.


Esse é o principal ponto, mas, antes é preciso voltar no tempo.


Em 1995, o governo do Partido dos Trabalhadores, por meio da lei complementar nº 476/1995, criou o Parque Municipal do Morro de São Bento, como se pode ver no excerto abaixo:

“Art. 1º Fica criado o "PARQUE MUNICIPAL DO MORRO DE SÃO BENTO", em área de 25,088 hectares, de domínio da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, localizado no Morro do São Bento, na região urbana do Município, constituindo-se em um complexo de áreas verdes (Bosque Municipal "Fábio Barreto"), "Conjunto Cultural Antônio Palocci" (Teatro Municipal, Teatro de Arena, Casa da Cultura), Casa do Rádio Amador e espaços esportivos (Conjunto Poliesportivo "Elba de Pádua Lima" - Cava do Bosque), área essa objeto de transcrição nº 6317, do livro 3-H, fls.13, do 1º Cartório de Registro de Imóveis e Anexos de Ribeirão Preto.


Destaco desse excerto o fato de ter sido criado o Conjunto Cultural Antônio Palocci, que circunscreve o Teatro Municipal, o Teatro de Arena, a Casa da Cultura, pois é justamente esse conjunto que está ameaçado. Sim, está ameaçado porque, embora o projeto tenha sido pensado para atender jovens vulneráveis, como dito acima, para facilitar sua realização, os técnicos da Secretaria de Cultura do Estado optaram por implantar uma Fábrica de Cultura justamente no Conjunto Cultural Antônio Palocci.


À primeira vista, podemos pensar que tal fato seja positivo, por isso, daqui pra frente, escreverei em tópicos para facilitar o entendimento do leitor.


1. A Escola de Arte funciona no prédio histórico que abriga a Casa da Cultura, e, de acordo com a denúncia relatada acima, a partir implantação da Fábrica de Cultura, ela não existirá mais. Sim, a única escola pública de arte de Ribeirão Preto sumirá e levará consigo a memória do trabalho de Antônio Palocci, Thirso Cruz, Pedro Manuel Gismondi, Bassano Vaccarini, Francisco Amêndola e muitos outros, que foram responsáveis por preparar o terreno para que, hoje, depois de criado o Sistema Nacional de Cultura, pudéssemos semear a democratização do fazer cultural.


2. O Conselho Municipal de Políticas Culturais, embora seja deliberativo, sequer foi consultado. Conselheiros denunciam que os representantes saíram da reunião do Conselho e nunca mais voltaram; tampouco Isabella Pessotti, responsável pela pasta, responde às suas solicitações.


3. Até onde tenho informação, o CONPAC, Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Ribeirão Preto, também não foi consultado. Por que deveria ser? Porque os prédios históricos do Conjunto Cultural Antônio Palocci serão todos alterados e o CONPAC é que é o órgão responsável por avaliar o impacto causado pela reforma.


4. Agora, o mais importante: Se é um projeto criado para tentar reduzir a vulnerabilidade dos jovens, por que implantá-lo em um local de difícil acesso para quem mora na periferia da cidade? Qualquer jovem de periferia que queira chegar ao Parque Municipal do Morro de São Bento terá de pegar ao menos dois ônibus.


5. Onde poderia ser implantado? Na minha opinião, onde funcionou o Programa Ribeirão Criança, isto é, na Vila Tecnológica, que tem um centro cultural – que estava ocupado por pessoas sem teto, mas já está liberado -; uma quadra e quinze casas praticamente sem uso e depredadas, que certamente mereceriam uma atenção especial, além de estar cercada por bairros como Maria Casagrande Lopes, Heitor Rigon, Dom Mielle, dentre outros, cujo acesso à Vila Tecnológica pode ser feito a pé.


6. Não bastasse o já explicitado, todo esse complexo será gerido por uma OS (Organização Social) chamada Poiesis – creio que deveria se chamar Práxis, mas esse assunto fica para outro dia -, assim como está funcionando quase toda a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, como se não houvesse gestores de cultura competentes na cidade.



7. Mas existe mecanismo legal para isso? Sim. No dia 29 de julho, Nogueira sancionou a lei que permite que OSs – Organizações Sociais – administrem parques da cidade. Como, em 1995, o complexo foi transformado em Parque Municipal, o aspecto legal dessa irresponsabilidade está garantido.


Os trabalhadores da cultura sabem muito bem o provável motivo de tanta subserviência, como mostra o comentário de um historiador e proprietário de um espaço cultural da cidade, em uma postagem minha no FaceBook:

“Esse projeto da Fábrica da Cultura 0.4 é um projeto que conceitualmente foi pensado para a periferia. Ele nunca deveria ser pensado para o Centro. Existem outros espaços na periferia que poderiam estar sendo reformados para receber esse projeto. A Isabela está usando esse projeto aí de "vitrine" pra classe de "notáveis" que versa sobre cultura na cidade e para tentar garantir o acesso a um carguinho nessas OSs, quando ela não mais estiver no governo. E tem mais.... na esteira dessa "parceria" com o Estado, o município entregou a sede da Casa do Rádio Amador, que fica ali ao lado da Casa da Cultura, para a PM. Terá uma base militar lá em prédio cedido e reformado pela prefeitura. E tem mais um pouquinho, tudo isso está dentro de um projeto de cercamento do Morro do São Bento, que toda a classe dos "notáveis" sempre quiseram pra lá e já ouvi dizer que tem até projeto pronto. A secretaria rompeu diálogo com o conselho sobre esses e outros assuntos. A resposta da Isabela pro Conselho é que sociedade civil não versa sobre o patrimônio municipal, que isso seria uma atribuição do executivo. Essa aí pelegou de um jeito que assusta...”


Sim, esse comentário resume o pensamento da categoria. Todos nós, trabalhadores da cultura, sabemos do desapreço dispensado à categoria pelo prefeito da cidade. Também sabemos que Isabella Pessotti é uma esquerdista tucanada, ex-militante da cultura, que, no momento, só pensa no seu umbigo, no seu sustento e numa maneira de agradar ao Nogueira e ao Sá Leitão, para, como bem disse o companheiro citado acima, garantir trabalho, seja na SMC, ou numa OS da vida.


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Márcio Coelho é Secretário de Cultura do PT de Ribeirão Preto Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

Comentários (2)

Humberto

Falou tudo parabens tomara que a Casa da Chultura nao acabe faz parte de minha vida esses ultimos anos como unico lugar de Artes visuaes gratuito na cidade e como conhecedore frecuentador de outroas Escolas no Brasil e no Mundo mais nesses tempos e uma grande valvula de equilivro para a Cidade de Ribeirao Preto que ta um pouco decadente e cuando a pandemia passar seria um gran rencontro com as diferentes disciplinas e as Artes

Adi Mellin Ferreira

O texto mostra com grande clareza o desmonte da cultura em Ribeirão Preto, o que se vê em praticamente todo o país. Que venham novos ventos, trazendo lucidez e valorização cultural. Gostei!