Morreu um documento da raça

Ilustração: Ana Favaretto

Morreu um documento da raça

No meio de uma sesta, sou acordado pela TV aberta e ligada, que informava que havia morrido Moraes Moreira, um dos maiores cancionistas brasileiros de todos os tempos. Senti como se estivesse envolvido pela canção moreiriana: entre o abraço do parceiro e um pedaço de amargura. Mais amargura do que abraço. Tristeza.

         Antônio Carlos Moraes Pires morre num Brasil amargo. Num Brasil em cujo comando não há quem possa reverenciá-lo à altura da sua contribuição para o caldo da cultura brasileira. Num Brasil que não respeita seu coração democrata, nem o futuro das meninas do Brasil com o qual ele sonhava. Num Brasil doente de corpo e alma.

         Era final do Jornal Hoje. Eu me lembrei, como se fosse hoje, do dia em que a guitarra baiana de Armandinho rasgou a tela da TV e nos apresentou “Pombo Correio”, frevo com letra de Moraes Moreira sobre melodia de Dodô e Osmar. Sim, Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar haviam tomado o lugar ocupado por Johnny Mathis e sua linda canção “Evie” por muitos anos. Um emblemático momento que prenunciava o que só iria acontecer vinte anos mais tarde, quando a música popular brasileira retomou o poder na indústria da música.

         Quase ninguém compreendeu quando Morares Moreira disse, em sua quase folclórica “Preta, Pretinha”, que iria chamar seu amor de “Só”: “Só, somente só/ Assim vou lhe chamar/ Assim você vai ser”. Como chamar de Só, alguém que se convidava para abrir a porta e a janela e ir ver o sol nascer?

         O fato era que Luiz Galvão, um dos Novos Baianos, autor da letra, havia arrumado uma namorada em Niterói, no Rio de Janeiro, em cuja capital já viviam Os Novos Baianos. Essa namorada se chamava Socorro. Fossem eles paulistas, ela seria chamada de Sô, como eram baianos, a chamaram somente de Só. A barca entrou na canção por conta da travessia Rio-Niterói.

         Enfim, morreu um brasileiro. Criador e criatura. Um documento da raça pela graça da mistura, a quem eu dedico um poema que fiz há poucos anos:

 

MODO DE DIZER
haverá um dia
minha gente
que, assim
do nada
minhas palavras
só serão
ditas cantadas.

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Márcio Coelho é Secretário de Cultura do PT de Ribeirão Preto Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

Comentários (1)

Mariangela H Q Moraes

É sempre uma surpresa agradável ler o que escreve Marcio Coelho. Um olhar único sobre a canção e o cancioneiro.