Galeno Amorim: O PT é como pão-de-ló: quanto mais bate, mais cresce.

Galeno Amorim: O PT é como pão-de-ló: quanto mais bate, mais cresce.

Não faz sentido a especulação de certos analistas que se perguntam, com certo desdém, se conseguirá o PT, tal qual a Fênix da mitologia grega, se refazer das cinzas. Definitivamente, não é o caso. Em 35 anos de luta e embates por um mundo melhor e possível, a imagem que mais lembra o Partido dos Trabalhadores na fornalha da política é outra. É a do pão-de-ló, que, segundo a sabedoria popular, quanto mais apanha, mais cresce...e ganha consistência.

Engana-se quem aposta que a mais recente campanha desferida contra o partido - como tantas outras em três décadas e meia - será capaz de apequenar ou encantoar o PT no ringue político. Afinal, sempre se soube que não seria fácil e que jamais o PT, assim como qualquer outro partido de esquerda, teria ou terá qualquer refresco por parte da mídia e das forças conservadoras. Na lógica da imprensa, é simples assim: o que é negativo contra o PT, suas gestões e lideranças deve ser tratado como muito mais do que realmente é; já o que é positivo não mereceria destaque algum por não ser nada mais do que obrigação...

Vale recordar um emblemático episódio da campanha presidencial de 1989 que eu pude testemunhar no Pinguim, em Ribeirão Preto. A tantas da noite, e muitos chopes depois, o comandante de uma das principais redações do País nem se ruborizou ao revelar qual seria o tom da cobertura jornalística daquele ano: "O que for a favor do Lula, nem precisa mandar, ou, se não tiver jeito, reduza a cinco linhas... Já o que for contra, amplie ao máximo, pois, senão, nós mesmos faremos isso...".

Mais tarde, essa filosofia barata se traduziria em ações escandalosas como aquela montagem vergonhosa do debate entre Collor e Lula ou no desfecho, transmitido ao vivo, às vésperas da votação final, do sequestro do empresário Abílio Diniz, quando um dos sequestradores foi apresentado pela polícia à imprensa com uma camisa do PT.

É fato que em parte alguma do mundo capitalista algum dia foi fácil criar e manter partidos de esquerda, que optam pelos mais fracos. No Brasil historicamente dominado por forças oligárquicas, não é difícil, portanto, entender esse ódio contra o PT que nasceu antes mesmo dele surgir. O antipetismo nasce dos erros e acertos dos próprios governos petistas. Já o ódio é mais antigo: quem tem privilégios resiste como pode a perdê-los, e daí surge a intolerância, racismo, preconceito e a homofobia, entre outros.

O mote das campanhas contra Getúlio (no período democrático), JK e Jango, por suas posições mais avançadas, era o mesmo reavivado agora: a corrupção. Não há, afinal, quem seja contrário a combater essa prática. O cinismo e a incoerência desse discurso conservador é que corrupção é só a outro. Algo que os evangelhos já tratavam: vê um cisco no olho do outro, mas não percebe a trave que o cega.

Isso, contudo, não pode servir de desculpa, entre petistas, para fazer igual aos outros e jogar para debaixo do tapete, como têm feito, ao longo dos anos na atualidade, os governos tradicionais. Afinal, do PT se espera mais e posturas realmente diferenciadas que ajudem a dar um norte para a sociedade. O PT chegou até aqui porque mobilizou os que viam nele um caminho para se ter mais justiça social e menos desigualdade. E também impulsionado por aqueles que almejavam mais honestidade na política.

É inegável que nunca se investigou tanto como atualmente, com instituições tendo autonomia e tranquilidade para cumprir seus papéis. Ponto para o PT! Mas não é só. Hoje em dia, felizmente, a mesma sociedade que, há tempos, justificava o “rouba, mas faz...", já não tolera esse comportamento entre os políticos. Não pra dizer que quando os outros fazem, ninguém diz nada.

Ao chegar ao poder no plano nacional, o PT fez o que se esperava dele, sobretudo, no campo social, tirando milhões de famílias da miséria. No campo ético, contudo, é fundamental que se faça uma autocrítica e trabalhe para aprimorar os mecanismos institucionais a fim de eliminar o caixa 2 das campanhas e o investimento de empresas em candidatos.

Se o modo petista de governar (com experiências formidáveis como o Orçamento Participativo e o Renda Mínima) encantou a sociedade nos anos 1980 e 1990, agora é hora de tanto enfrentar a guinada conservadora como articular novos avanços. Isso não se faz só. É preciso construir uma pauta comum com as forças progressistas na política no movimento popular e por cidadania e atuar mais em redes.

É a hora de, às vésperas das eleições municipais de 2016, estabelecer novas agendas e reinventar mesmo a forma de fazer política - se religando às bases tradicionais e construindo pontes com as novas gerações. Uma bandeira que talvez venha a simbolizar esse novo tempo da política - mais colaborativa, fiscalizadora e cidadã, sem perder o horizonte das transformações sociais necessárias - é a radicalização da participação política, uma utopia que, em tempos digitais, finalmente se tornou possível.

 

A hora é agora!

 

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Galeno Amorim é jornalista e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional e o Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc-Unesco). Atualmente, dirige o Observatório do Livro e da Leitura Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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