Fábio Sardinha: Escola sem partido ou partidarizada?

Fábio Sardinha: Escola sem partido ou partidarizada?

Escola sem partido, sem estrutura, sem salários, sem utopia...

 

A recente proposta da chamada escola sem partido já tramita em cerca de 12 Câmaras Municipais, sete Assembleias Legislativas, além de quatro projetos na Câmara dos Deputados e uma no Senado.

 

O ambiente escolar, conforme preconiza a LDB, diz que a escola deve ser um ambiente de prática libertadora, onde todos podem se colocar, se contrapor, a partir da pluralidade de temas, com respeito a minorias e combate a todo tipo de discriminação, seja de etnia, gênero, orientação sexual, religião.

 

Enfim, temos já uma legislação que define a importância dessa pluralidade de conteúdos que possibilitem ao aluno não apenas uma visão de mundo à esquerda ou à direita, mas o acesso a um conteúdo que lhe dê possibilidades de ter um arcabouço de ideias e contrapontos que lhe permita ter a sua visão crítica, transformadora da realidade, possibilitando, assim, a esse aluno, tornar-se um cidadão crítico e consciente de seu papel na sociedade.

 

Na verdade, os defensores da chamada escola sem partido defendem uma volta ao nosso passado, onde tínhamos a chamada educação moral e cívica que a ditadura sustentou, retirando da grade disciplinas como sociologia, filosofia e até a possibilidade de uma educação em história crítica, onde se buscava sempre valorizar as datas, os heróis nacionais, e jamais criticar os padrões políticos e sociais vigentes, fomentando assim uma educação voltada apenas aos interesses dos poderes constituídos de plantão que não toleravam qualquer questionamento, uma educação voltada para a intolerância.

 

Nós, professores que defendemos essa prática libertadora da educação preconizada na LDB, procuramos incentivar e estimular a pluralidade em sala de aula. Não podemos ter um curso de sociologia, no ensino médio, que não mencione Karl Marx, como também não podemos restringir o acesso e a leitura de quem foi Adam Smith, considerado um dos clássicos da teoria do liberalismo econômico e criador do conceito mão invisível do mercado. Só para ilustrar, temos aí dois teóricos importantes da história do conhecimento humano que representam teorias políticas distintas que fazem parte do currículo do ensino médio paulista.

 

Como tratar a Revolução Industrial sem citar a história dos movimentos e sindicatos que lutavam contra as extenuantes jornadas de trabalho e demais práticas abusivas, como o trabalho infantil? Como também não é possível sustentar a possibilidade de concentração de lucros pelas potências europeias, legitimadas pelas teorias econômicas clássicas, como Adam Smith.

 

Na aula de biologia não podemos criticar quem acredita na criação do mundo sobre a perspectiva bíblica de Adão e Eva, mas o aluno não pode deixar de ter acesso ao darwinismo e à teoria da evolução. Se ele vai acreditar em um ou em outro é meramente uma escolha de fórum íntimo que não cabe ao professor, mas jamais podemos omitir esse conhecimento.

 

Na verdade, a escola sem partido está defendendo o modelo de escola de partido único, que seja uma extensão de uma “educação moral de acordo com as convicções da família”, isso sim é uma escola partidarizada.

 

O papel da escola não é criar o filho, mas lhe dar instrumentos de reflexão que lhe possibilite questionar até os seus valores, se assim ele desejar. Uma escola do futuro não pode se omitir dos avanços técnicos, científicos, produzidos até o presente momento. Uma escola conservadora apenas fomenta um futuro que não apresenta perspectivas de avanços, e, diante disso, estamos fadados a viver em uma sociedade injusta socialmente, como na atualidade. Não voltemos à caverna e, sim, libertai-vos das correntes de um passado que não merece ser ressuscitado.

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Fábio Sardinha é professor e diretor estadual da Apeoesp Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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