Verdades para consumo

Verdades para consumo

Os pensadores sociais, que refletem sobre o nosso tempo e sobre aquilo que eles chamam de pós-modernidade, não têm mais dúvida de que estamos vivendo mesmo a chamada “civilização do consumo” ou a tal “era do consumismo”.

 

Nas sociedades de mercado, dizem eles, em que a economia está baseada na produção e no consumo crescente de mercadorias, é preciso consumir sempre, e sem parar. O consumo, no fundo, transformou-se no “motor da economia”, pois se não houver consumo não haverá por que produzir.

 

Até o dinheiro, que o imaginário comum sempre considerou a finalidade última da produção e da circulação de mercadorias, virou ele próprio uma mercadoria. A prevalência do capital financeiro sobre o capital produtivo é uma prova disso, ou seja, quando os bancos e fundos concedem empréstimos, na verdade, eles estão a “vender dinheiro” para obtenção de lucro e, portanto, para obtenção de mais dinheiro.

 

Nas sociedades de consumo tudo é mercadoria, tudo tem apenas valor de troca. E como o consumo não pode parar, pois é o “motor da economia”, as mercadorias compradas devem ser consumidas imediatamente ou descartadas com rapidez para possibilitar novas compras, mantendo assim a escalada incontrolável do consumo.

 

As notícias e informações que absorvemos diariamente, fornecidas pelas empresas de comunicação de massa, são também mercadorias, dessas mercadorias que compramos sem perceber. As empresas “produzem” a informação como acham que devem produzi-las e entregam-nas cotidianamente nas casas dos consumidores de notícias. Assim as empresas de comunicação ficam com o lucro, enquanto que os consumidores ficam com o produto que não escolheram e que já lhes chegou “pronto”.

 

Neste ano de 2015, as empresas de comunicação de massa no Brasil “venderam” os seus mais variados produtos em todos os setores, venderam de tudo e venderam, acima de tudo, “ideias”. É isso mesmo, não estranhe, venderam “ideias”. E pior, muitas dessas ideias foram vendidas como “verdades”. E pior ainda, como “verdades para consumo”, isto é, “verdades” que se compra como qualquer mercadoria, sem escolha e sem crítica, para descartá-las em seguida.

 

Dentre essas “verdades para consumo”, que as empresas jornalísticas nos venderam no último ano, está um produto que foi realmente “sucesso de venda”: venderam aos brasileiros a “verdade” de que a esquerda no Brasil e o partido de esquerda que está hoje no governo são corruptos e incompetentes.

 

O problema é que esse mercado de ideias, que “vende verdades”, é um mercado monopolizado por poucos brasileiros poderosos, de modo que os “consumidores dessas verdades”, contrariando a lógica liberal do mercado livre, não têm escolha, não podem escolher nem o fornecedor nem a mercadoria a ser consumida.

 

Logo, as “verdades” produzidas pela mídia empresarial funcionam como “verdades únicas”, expressões de um “pensamento único”, quer dizer, um pensamento totalitário, sem contestação nem contraponto. Isso, nos regimes nazifascistas da Europa, era chamado de “propaganda política” e não direito de informação – Adolfo Hitler e José Goebbels que o digam!

 

Pois bem, no campo político, a única verdade/mercadoria que grande parte dos brasileiros pôde consumir foi mesmo a ideia de que a esquerda é inepta e corrupta, cujo destino deve ser apenas a cadeia, ou, segundo algumas vítimas mais empolgadas desse “consumo de verdades”, o completo extermínio.

 

Deixa dar um exemplo concreto, casuístico, mas emblemático, para não ficarmos apenas no campo teórico reservado mais apropriadamente aos cientistas políticos e aos pensadores ou filósofos da cultura.

 

A justiça brasileira condenou um político importante da esquerda, filiado ao Partido dos Trabalhadores, a 10 anos de prisão; esse político esperou o julgamento todo na cadeia; foi condenado sem direito a recurso e está preso até hoje. Pelo mesmo motivo, a mesma justiça acabou de condenar um importante político da direita, filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira, a 20 anos de prisão; esse político esperou o julgamento todo em liberdade; continua em plena liberdade, e pode recorrer a outras instâncias… sempre em liberdade.

 

Ao condenar o político da esquerda, o juiz do STF (não sei porque os juízes do Supremo são chamados de ministros) disse que o partido do condenado era uma “grande organização criminosa”; ao condenar o político da direita, a juíza sentenciante disse também que o caso era de uma “complexa organização criminosa” – particularmente, devo dizer que não considero nem o PT nem o PSDB duas “organizações criminosas”.

 

Pois bem, as empresas jornalísticas fizeram um enorme estardalhaço no caso do político da esquerda, mas poucas coisas disseram sobre a condenação do político da direita. Produziram e venderam a “verdade” de que o político da esquerda e seu partido formam uma quadrilha de bandidos; mas tiveram o cuidado de não criminalizar nem o político nem o partido da direita.

 

A bem dizer, a mídia empresarial praticamente “escondeu” a condenação do político da direita; “escondeu” que a sua pena foi o dobro da pena do político da esquerda; “escondeu” que o político da direita não foi pra cadeia até hoje; “escondeu” que esse político pode recorrer em liberdade; “escondeu” que ele pode levar o seu processo à prescrição; “escondeu” que a juíza do caso considerou que o partido da direita participava de uma “complexa organização criminosa”.

 

E aqueles “entendidos”, que estão a toda hora nos jornais, no rádio e na televisão, analisando o Brasil e a política brasileira, dando-se ares de comentaristas livres e independentes, seguiram o mesmo comportamento dos seus patrões, isto é, fizeram o maior escarcéu com a condenação do político esquerdista e mantiveram o “bico bem caladinho” com respeito à condenação do direitista.

 

E digo que também não vi ninguém do povo indignado com o político da direita que, apesar da grave condenação, anda aí “soltinho da silva”, pronto para fazer ou comandar novas falcatruas. Não vi ninguém pedir a “prisão preventiva” desse político sob o argumento de que ele poderia continuar cometendo crime, como aconteceu com o político da esquerda que todo mundo quer ver mofando atrás das grades.

 

Fala a verdade, comandante, dá ou não dá pra entender porque tem tanto brasileiro pedindo cadeia, pena de morte, banimento e extermínio dos políticos e dos partidos de esquerda?

 

Ah, ia me esquecendo! Antes que alguém diga que se está aqui a fazer a defesa do PT e dos petistas sugiro ponderar duas coisas: primeiro, os fatos concretos acima referidos sobre os dois políticos condenados são FATOS DE FATO, não são meros argumentos nem simples opiniões: segundo, o que se está tentando defender aqui é o legítimo direito à verdade, sem as manipulações que transformam esse direito em discurso do ódio ou em pura “propaganda fascista”.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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