Uma carta ridícula

foto: FSP

Uma carta ridícula

"...De um jeito ou de outro, seja por causa do amor ferido pela presidenta que o discriminou, seja por simples amor ao poder, parece que a carta do vice-presidente da república não está à altura de seu cargo, não é um documento típico do verdadeiro estadista, e acabará mesmo cumprindo aquele destino ridículo das cartas de amor..."

O poeta Fernando Pessoa dizia que “todas as cartas de amor são ridículas, e não seriam cartas de amor se não fosse ridículas”. É exatamente esse poema de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) que me vem à memória lendo a carta que o vice Michel Temer escreveu à presidenta Dilma Rousseff.

 

Pelo tom melodramático do desabafo dá até pra imaginar um garoto amuado, sentindo-se rejeitado pela mãe e fazendo beicinho pra reclamar a atenção, os afagos e os carinhos que perdeu!

 

É incrível, é “realmente surreal”, como o autor da carta, feito menino que não ganhou o presente, reclama de seu papel secundário no governo, como se o vice não fosse mesmo o segundo posto da república, protestando, sem um mínimo de pudor, em face dos cargos que o seu partido (PMDB) perdeu no governo.

 

E depois de mandar a cartinha pessoal reclamando da falta de confiança da presidenta da república em relação a si, o vice-presidente reclamou também de que o Palácio do Planalto teria “vazado” à imprensa o conteúdo da carta.

 

Quanta maldade com o bom menino!

 

Há quem diga, porém, que essa cartinha não é apenas um chororô birrento, e não se trata de um mero desabafo ou pirraça de garoto desconsolado. Há quem diga que essa carta contém uma adesão expressa de Michel Temer ao movimento golpista pelo impeachment da presidenta da República.

 

Se for verdade, a atitude do missivista fica ainda pior, fica mais ridícula. É certo que o vice Michel Temer não tem a mesma estatura de um José Alencar, mas não precisava exagerar no oportunismo nem na mediocridade dos que almejam o poder a qualquer custo, inclusive ao custo da normalidade institucional e da democracia no país.

 

Essa versão do golpismo é realmente uma versão muito plausível, sobretudo porque o vice Michel Temer já andou dizendo por aí que o impeachment de Dilma Rousseff tem “lastro jurídico” e que o presidente da Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha PMDB-RJ) tinha mesmo o direito de deflagrar o respectivo processo, fazendo o que fez.

 

E ainda mais porque o partido do vice (PMDB) acabou de lançar o seu programa de propostas para o Brasil denominado “Ponte para o futuro”, dizendo que esse plano é “uma ponte contra a crise e é pra já”, quer dizer, “o futuro é agora”.

 

Nesse caso, o peemedebista deveria refletir sobre a epígrafe de sua própria carta – verba volant, scripta manent – pois, colocou agora no papel, para o rigoroso julgamento da história, aquilo que poderá ser uma prova irrefutável de sua ambição, vaidade, fisiologia política e golpismo explícito.

 

De um jeito ou de outro, seja por causa do amor ferido pela presidenta que o discriminou, seja por simples amor ao poder, parece que a carta do vice-presidente da república não está à altura de seu cargo, não é um documento típico do verdadeiro estadista, e acabará mesmo cumprindo aquele destino ridículo das cartas de amor.

---
Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

Comentários

Ainda não há comentários nesta notícia. Seja o primeiro!