Sobre mandioca e “mulheres sapiens”

Sobre mandioca e “mulheres sapiens”

Fizeram um enorme estardalhaço com algumas frases pinçadas do discurso da presidenta Dilma Rousseff, em junho deste ano, proferido no Estádio Mané Garrincha em Brasília durante o lançamento dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas.

 

Ironizaram especialmente as frases em que ela dizia “saudar a mandioca”, bem como aquela em que fala da capacidade criativa do “homo sapiens”, referindo-se também às “mulheres sapiens”.

 

Foi um Deus nos acuda!

 

As frases da presidenta viralizaram na internet. Os bem informados divertiram-se às mancheias. Não se conformavam com a ignorância e o despreparo de uma presidenta da república que ousou saudar, imaginem!, a mandioca.

 

Estavam inconformados também com o fato de que ela não soubesse que a locução “homo sapiens” designa tanto o gênero masculino quanto o feminino dessa subespécie primitiva que, dizem, seria um dos ancestrais do homem contemporâneo.

 

Nem de longe passou pela cabeça desses iluminados que a mandioca é o primeiro símbolo da soberania alimentar dos povos indígenas que aqui viviam e que continuam sendo barbaramente dizimados pelo homem civilizado, sedizente “homem sábio”, suposto herdeiro do primata de Neandertal.

 

Não passou também pela cabeça desses sapientes que a presidenta da república poderia ter utilizado a expressão “mulheres sapiens”, de maneira descontraída e bem-humorada, apenas para enfatizar a igualdade de gênero e a importância dos direitos da mulher na sociedade moderna.

 

Mas, decerto que agora esses “iluminados sapientes”, que ironizaram tanto o discurso da presidenta no lançamento dos jogos olímpicos indígenas, sabem que esses jogos estão em andamento na cidade de Palmas, no Tocantins.

 

Devem saber também que as olimpíadas indígenas contam com participantes de 22 países, inclusive da África, da América do Norte, da Rússia e da Nova Zelândia, contando ainda com mais de 20 etnias só do Brasil.

 

E se não sabem nada disso é porque a telinha da Globo não mostra, os grandes jornalões e as grandes revistas não publicam nada, pois os nossos indígenas precisam permanecer invisíveis a fim de que o “homo sapiens” continue tomando-lhes as terras e matando-os sem piedade – como nos tempos da colonização.

 

Enquanto isso, alguns brasiliensis sapientissimus continuam alegremente por aí, fazendo as suas chacotas na internet, assistindo aos jogos da Champions League, deslumbrados com a NBA e com a vitória do Lewis Hamilton na Fórmula 1, porém, ignorando olimpicamente os jogos, a história e a tragédia dos indígenas brasileiros.

 

Seguem distraídos, disseminando o machismo das elites e desconhecendo a luta emancipatória das “mulheres sapiens”; seguem reproduzindo o preconceito dos colonizadores e desdenhando o símbolo da segurança alimentar de um povo que ainda sobrevive apenas por milagre, submetido a 500 anos de injustiça e humilhação.

---
Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

Comentários

Ainda não há comentários nesta notícia. Seja o primeiro!