O humanismo do papa

O humanismo do papa

Nestes últimos dias tem havido muita expectativa acerca da visita do papa Francisco a Cuba, especialmente porque a ilha do Caribe é um país oficialmente ateu e onde se pratica um sincretismo religioso chamado “Santería”, que mistura catolicismo e crenças africanas numa espécie muito original de religião afrocaribenha.

 

Para o biógrafo do papa Francisco, Austen Ivereigh, não há nenhuma dificuldade religiosa nessa visita do pontífice a Cuba, pois, o bispo de Roma acredita que o povo cubano, independentemente de suas práticas religiosas, é um povo que tem muita fé, e devemos procurar Deus exatamente na fé das pessoas.

 

Se devemos procurar Deus na fé das pessoas, então devemos procurá-Lo nos homens, o que retoma aquela antiga polêmica do filósofo alemão, Ludwig Feuerbach (1804-1872), que tanto influenciou o materialismo dialético de Carlos Marx, segundo a qual “não foi Deus quem criou o homem, mas foi o homem que criou Deus à sua imagem e semelhança”.

 

Creio que há muito dogma, muito fanatismo e talvez até mesmo muita arrogância nas questões religiosas em geral – tanto por parte dos crentes quanto pelo lado dos ateus. Por exemplo, há qualquer coisa de arrogante no crente quando ele afirma que teve o privilégio de encontrar Deus; mas, há também alguma arrogância naqueles que afirmam ter a certeza de que Deus não existe.

 

Essa é uma questão permanentemente aberta, sem solução à vista. Por isso, talvez fosse mais sensato agir como os agnósticos, que não se metem com esses problemas assim tão metafísicos, preferindo deixar o céu “para os anjos e para os pardais”, exatamente como aconselhava o poeta alemão Henrique Heine.

 

Mas, uma coisa é certa, as religiões não se confundem com a fé.

 

Para Carlos Marx, a religião era o “ópio do povo”, ou seja, uma fonte de muita alienação e de grande distanciamento da realidade; já para o pai da psicanálise, Sigmund Freud, a religião seria uma espécie de “ilusão sem futuro”, dessas que só servem para propiciar superstições e tornar o homem cada vez mais infantilizado.

 

Se as religiões são assim alienantes e supersticiosas, e creio que são, a fé das pessoas é algo muito diferente. Ela é uma força que nos antecede a todos, portanto, uma força ancestral. Julgo que mesmo nós, os miseráveis descrentes, devemos pelo menos acreditar na fé, aliás, como sugere aquela famosa canção popular (Rita Lee?): “não acredito em nada não, só não duvido da fé”.

 

Não sei se o papa tem fé nem sei se ele acredita em Deus (é provável que sim), mas ao propor que devemos buscar Deus na fé das pessoas, acho que o papa Francisco é antes de tudo um humanista – daqueles que ainda acreditam nos homens.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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