O conservadorismo da classe média

foto: Agência Rede PT

O conservadorismo da classe média

A tradicional classe média, enquanto classe social no capitalismo, simplesmente não existe. De fato, o conceito de classe, tal como elaborado pela sociologia, depende da maneira como as camadas da população se vinculam ao processo de produção nas sociedades burguesas ou capitalistas.

 

No modo de produção burguês, por exemplo, tem-se apenas duas classes: a classe proprietária dos meios de produção e a classe detentora da força de trabalho. Assim, enquanto a classe proprietária dos meios produtivos detém o “poder econômico”, a classe trabalhadora detém o “poder social”.

 

Como a classe média não é proprietária dos meios de produção nem tampouco deseja enxergar-se como classe trabalhadora (muito menos como “classe proletária”), instala-se o seu grande dilema, digamos, existencial: ser ou não ser uma classe social autêntica.

 

Nas sociedades contemporâneas, em que boa parte da classe média se transformou numa espécie de “burguesia assalariada” (executivos, consultores etc.), incumbida de gerir o capital e os negócios das grandes corporações econômicas e financeira, esse dilema existencial se tornou ainda mais agudo, mais indecifrável.

 

Para complicá-lo, há um elemento psicológico que é também fonte de angústia para a classe média. Trata-se do fato de que ela vive permanentemente entre o sonho pequeno burguês de ascender à classe proprietária dos meios de produção (sonho que ela não quer descartar) e o pesadelo proletário de se ver um dia “rebaixada” à condição de classe trabalhadora (pesadelo do qual ela não consegue livrar-se).

 

Daí pode-se inferir que a classe média não tem um lugar definido no modo de produção capitalista, e não detém nem o poder econômico da classe de cima nem o poder social das classes populares. Qual seria então o lugar da classe média na sociedade burguesa e qual o tipo de poder que ela eventualmente poderia concentrar em si?

 

O lugar da classe média é mesmo a ambiguidade, ou seja, o destino dela é participar do processo de produção sem pertencer à classe superior, que detém a propriedade dos meios produtivos, e sem pertencer à classe inferior, que produz socialmente.

 

Isso explica boa parte do isolamento, do individualismo, das cautelas e dos temores da classe média. E dentre seus temores e preocupações está, certamente, o “medo da mudança social e do novo”, ou mais claramente, o medo das transformações socioeconômicas.

 

Muitos especialistas acham que a classe média teme tais mudanças porque ela é a única que poderá perder alguma coisa. Isto é, as mudanças socioeconômicas dificilmente atingirão os ricos proprietários na sociedade capitalista porque estes têm como se defender, e, por outro lado, as mudanças também não atormentam a classe trabalhadora porque, na verdade, elas são um anseio e uma reivindicação dessa classe.

 

Logo, a camada social que mais teme, e que não apoia mudanças de jeito nenhum, é mesmo a chamada “classe média”, justamente porque transformações sociais não implicam, necessariamente, ganhos para as suas condições de vida, e ainda por cima podem ameaçar seu status, seus direitos, bem como suas conquistas socioeconômicas e culturais.

 

Isso tudo explica em boa medida o caráter intrinsecamente conservador da classe média no campo político, social e econômico.

 

E explica também o viés autoritário de seu discurso justificador da ordem vigente. Ou seja, a classe média nunca deseja mudanças sociais, muito menos as mudanças bruscas. Por isso, está sempre disposta a defender a ordem, seja por meio da retórica conservadora seja até mesmo pelo uso da força física, apegando-se, por exemplo, às ideias de “meritocracia” dos mais aptos e repressão dos “inaptos” ou descontentes.

 

Dessa forma, defendendo intransigentemente a manutenção da ordem, e admitindo inclusive o uso da força para mantê-la, a classe média fica muito suscetível aos argumentos fascistas que excluem o diálogo, o direito de resistência, a possibilidade da contestação e até mesmo o direito/dever de pensar criticamente – se bem que, “pensamento crítico” é tautologia porque todo pensamento autêntico é necessariamente crítico.

 

Aliás, a ausência de senso crítico decorre, provavelmente, do fato de que a classe média tem muita informação, mas exercita pouco o pensamento. O acúmulo de informação transforma o cérebro num simples recipiente inerte ou passivo, portanto, “aceitador”; já o exercício do pensamento (ligação de ideias e relação de contextos) restitui ao cérebro a dignidade da consciência e da razão, aumentando o potencial “contestador”.

 

Como a classe média não tem uma identidade bem definida, e como ela carece também de pensamento crítico e não detém nem o poder econômico nem o poder social, resta-lhe apenas o “poder” de reproduzir ideologicamente os valores que lhe garantem a sobrevivência, ou seja, os valores burgueses que asseguram sua posição e estabilidade relativamente boas na hierarquia social.

 

A ambiguidade intrínseca da classe média – que não é classe nem deixa de sê-lo, que tem “consciência” e “posição” de classe conflitantes, que detém e espalha informações sem exercitar o pensamento crítico, e que admite apenas as mudanças que não mudam efetivamente o status quo – é a grande responsável pelo alienismo, pelo individualismo, pelo narcisismo e até mesmo pelo fascismo que atinge uma parte dos integrantes dessa classe… felizmente apenas uma parte.

 

No final das contas, a classe média não consegue afirmar-se senão a partir de uma concepção hierarquizada e vertical de sociedade, pois isso lhe garante uma posição intermediária e até certo ponto confortável entre as classes. É confortável porque, se ela não consegue ascender ao patamar superior da escala social, tem ao menos o consolo de não pertencer às camadas inferiores da sociedade.

 

Entre uma posição e outra, instalada abaixo das elites e acima do proletariado, a classe média funciona como uma espécie de “amortecedor” que cumpre funções históricas nitidamente conservadoras, seja porque absorve as tensões e os impactos transformadores da luta de classes, seja porque inibe as mudanças sociais e a universalização do princípio da igualdade, preservando assim a ordem necessariamente inigualitária do capitalismo.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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