Mais uma do Papa

Mais uma do Papa

O Papa Francisco, em sua recente visita à Bolívia, andou falando algumas verdades sobre as injustiças do capitalismo. E a direita, naturalmente reacionária, passou a considerá-lo um papa de esquerda, ou, mais precisamente, um notório socialista convertido ao marxismo.

 

Dois meses depois, assim que chegou aos Estados Unidos, perguntaram ao papa se ele era de fato um socialista. Consta que o pontífice, naquele seu estilo direto e bem-humorado, teria respondido mais ou menos o seguinte: “se eu sou socialista, então Jesus Cristo também era”.

 

Lembrei-me imediatamente das antigas aulas do catecismo, quando eu talvez já caminhasse na direção de ser um, digamos, “católico ateu”. Achava perturbadoras aquelas passagens bíblicas que mandavam “repartir o pão”, “socorrer os pobres e os desvalidos”, “dar de comer aos que têm fome” e (suprema solidariedade!) “amar o próximo como a si mesmo”.

 

Ainda menino, uma das metáforas bíblicas que mais me impressionavam era aquela que dizia, e certamente ainda diz: “será mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

 

Na altura, eu achava que os adultos diziam essas coisas apenas da boca pra fora, pois, salvo o caso raríssimo de Francisco de Assis, eu não via ninguém repartindo o pão com os famintos nem combatendo a fome e a pobreza – tampouco conhecia um único rico que tivesse medo do fogo do inferno.

 

Mais tarde, constatei que esses mandamentos bíblicos tinham qualquer coisa a ver com os fundamentos do socialismo, seja utópico seja científico (materialismo histórico), uma vez que a utopia socialista também repousa nas ideias básicas de solidariedade e distribuição da riqueza para que não haja pobres nem desvalidos nem esfaimados.

 

A riqueza de poucos e a pobreza de muitos são condenadas tanto pela Bíblia quanto pelo socialismo. E isso ajuda a explicar a confusão ideológica em que se meteu o Papa Francisco quando falava aos pobres da Bolívia, onde condenou enfaticamente as desigualdades, a exclusão e as injustiças geradas pelo capitalismo.

 

Por causa disso, andaram espremendo o papa nos EUA para saber se ele era realmente de esquerda, se era um “papa comunista” e se era mesmo um adepto do marxismo. Como ele justificou suas críticas ao sistema capitalista com base apenas na Bíblia e nas pregações de Jesus Cristo, entende-se que teria renegado qualquer filiação ideológica ao comunismo e às teorias de Carlos Marx.

 

Todavia, se a simples defesa de ensinamentos bíblicos pode ser facilmente confundida com a defesa dos valores e fundamentos do socialismo, a ponto de pôr o papa sob a suspeita de ser comunista, fica sempre uma pontinha razoável de dúvida: seria a Bíblia, e não o papa, um livro de esquerda?

 

Vai saber!

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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