Lula perdeu o jogo

Lula perdeu o jogo

O ex-presidente Lula da Silva já está condenado pelo juiz da Lava Jato, só falta saber a natureza e a quantidade da pena. É bobagem ignorar isso. A condenação dele já não é mais uma medida para combater a corrupção, não é mais uma “questão de justiça” – é uma “questão de honra”.

 

Se o juiz da Lava Jato – eu sempre acho estranho escrever essa frase, “juiz da Lava Jato”, porque a Lava Jato é uma operação policial e operações policiais são coisas pra polícia, não pra juízes -, mas, como eu ia dizendo, se o “juiz da Lava Jato” não “pegar” o Lula é porque essa operação terá fracassado, e isso pode soar como uma incapacidade ou despreparo do juiz que já fracassou anteriormente, no caso do Banestado – mas eram outros tempos!

 

Agora, o Brasil inteiro está de olho em Curitiba: o “morolismo global” de um lado e o “selecionado lulista” de outro. É como se fosse um grande fla-flu, num imenso Maracanã superlotado; é como se a bola do pênalti estivesse na marca da cal esperando o chute do, vá lá, “juiz da Lava Jato”.

 

E ao determinar uma arbitrária condução coercitiva do ex-presidente da república até a polícia, o juiz, ignorando por completo a presunção constitucional de inocência, tratou o petista qual verdadeiro “condenado” – e fez como aquele batedor de pênalti que sinaliza para o goleiro em que canto do gol vai bater.

 

Depois dessa ordem desnecessária e ilegal para conduzir o Lula, tá na cara que o “juiz da Lava Jato” vai chutar a bola no “canto da condenação”, e vai encher o pé, pois às vezes ele faz cara de mau, de sádico, sei lá.

 

Resta saber qual será a reação da torcida, porque nesse enorme Maracanã, com mais de 200 milhões de espectadores, obviamente que não tem uma torcida só: tem a torcida do Fla e a torcida do Flu. Nessa hora, diria o popularíssimo narrador de futebol, Fiori Gigliotti, “é fogo, torcida brasileira: agueeeenta coração”.

 

Mas, a metáfora e as semelhanças com o futebol não param por aí, não.

 

Ouço dizer a toda hora que a Rede Globo é a “dona” do futebol brasileiro. E nesse Maracanã lotado, nesse verdadeiro fla-flu em que se transformou a luta obsessiva pra “pegar” o Lula, a Rede Globo também monopolizou o espetáculo. Os “vazamentos” são sempre pra ela. É sempre ela quem transmite, em primeira mão, todos os lances espetaculares e os “melhores momentos” da Lava Jato.

 

Tanto é verdade que a Rede Globo, antecipando o resultado do jogo, entrevendo quem será o campeão, até já entregou o “troféu” ao “juiz da Lava Jato”, que ainda nem bateu o pênalti, mas já recebeu o prêmio vitorioso de “personalidade do ano”, concedido pela empresa dos herdeiros de Roberto Marinho.

 

Preocupado com essa confusão toda, em que o direito e a aplicação das normas constitucionais no Brasil andam ao sabor das “jogadas de efeito”, jogadas que empolgam uma parte da torcida e, sobretudo, os narradores da Globo, telefonei ao filósofo João Maquibrão, que é um pensador liberal e não tem nada de socialista nem de petista, pra saber o que ele estava achando desse momento conturbado por que passa o país.

 

O filósofo já está velho, cansado, mas continua o mesmo, atento. Ele me disse que tudo não passa de um “jogo de cartas marcadas”. Lembrou-me que o processo judicial assemelha-se a um jogo e que, como tal, o desfecho dele deveria ser sempre imprevisível. Lembrei-lhe que um conhecido processualista italiano do século passado, Piero Calamandrei, chegou a escrever um ensaio sobre as incertezas do processo judicial cujo título era exatamente Il proceso come giuoco. Ele então retrucou, insistindo, “mas no caso da Lava Jato é um giuoco diferente, de cartas marcadas”.

 

O processo do Lula, disse o filósofo, é só para “inglês ver”, pois o réu já está condenado de antemão. Ele concordou com as comparações e a metáfora do futebol, dizendo com ligeiro bom humor: “essa Lava Jato já tem o resultado no bolso e só está é jogando pra torcida”. Na sequência, com aquele seu ar irônico e sua sabedoria meio misteriosa meio sarcástica, acrescentou: “a condenação do Lula é missa encomendada”.

 

Quando lhe perguntei quem é que teria “encomendado essa missa”, a ligação caiu. Fiquei sem saber a opinião do filósofo – e me lembrei imediatamente do Fernando Henrique Cardoso quando prometeu, ao privatizar o sistema Telebras em 1998, que a telefonia brasileira ficaria igualziiinha igualziiinha aos serviços de telefonia do primeiro mundo. Ah, vá?!, será que eu nasci em Taubaté?

 

Pois bem, assim que conseguir falar novamente com o pensador Maquibrão, vou refazer a pergunta e depois eu conto a resposta, digo a todos qual é a opinião dele a respeito de quem “encomendou a missa”, ou seja, quem “encomendou” a condenação do Lula.

 

Mas, voltando ao fla-flu, aposto quanto quiserem que o resultado do jogo já está definido: e o Lula é o perdedor. Só falta o apito final do árbitro, mais nada. Haverá, naturalmente, muita comemoração de um lado, e muita choradeira do outro. Queiram os deuses, orixás e pais-de-santo que no fim do jogo não haja quebra-quebra nem empurra-empurra neste imenso (e sofrido) Maracanã!

 

E como no Brasil de hoje o direito não anda funcionando direito, se quiser virar o jogo e escapar da derrota o Lula vai ter que suar a camisa, e talvez tenha que fazer também muita mandinga, reza-brava ou macumba. Mas mesmo assim eu acho difícil, porque se macumba valesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado – todos os anos.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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