Jeitinho alemão

Jeitinho alemão

Por acaso, descobriram nos Estados Unidos que a alemã Volkswagen, símbolo de pujança econômica e orgulho dos alemães, instalou um “software velhaco” nos carros movidos a diesel para fraudar a medição dos índices de poluentes emitidos pelos veículos que ela fabrica e põe no mercado.

 

O tal software consegue identificar o momento exato em que o automóvel será submetido a um teste de emissão de gases poluentes e, imediatamente, modifica o sistema de leitura, apresentando índices mais baixos de poluição ambiental.

 

A própria multinacional alemã, flagrada na malandragem, pediu desculpas e admitiu que instalou mesmo esse software em aproximadamente 11 milhões de veículos que circulam tanto nos Estados Unidos quanto em outros países do mundo.

 

Trata-se de mais um (apenas mais um) episódio de fraude criminosa praticada pelo mercado contra o meio ambiente e contra os consumidores. O fato deve resultar em sérias punições e pesadas multas à empresa fraudadora, além de ferir profundamente o orgulho e a autoestima dos alemães que não se conformam com a própria velhacaria.

 

É sugestivo que, ao confessar a fraude, o presidente da montadora alemã nos Estados Unidos, revelando o indisfarçável sentimento de superioridade daqueles que se acham acima dos outros, teria exclamado: “we fucked it all over”, ou seja, “até nós ferramos tudo”!

 

Pois é, “até vós, alemães”!

 

Para além das previsíveis implicações e complicações, esse fato serve para questionar dois mitos que sempre andaram muito em voga por estas bandas – aqui abaixo e um pouco acima da linha do equador.

 

O primeiro mito é o persistente complexo de inferioridade dos latino-americanos ou “complexo de vira-lata” (Nélson Rodrigues), que ainda reproduz uma autoimagem negativa dos “povos do Sul”, como se fossem culturalmente inferiores e politicamente submissos, talvez uma “raça rebaixada” pela intensa mestiçagem que propende para a fraude, para a malandragem e para o crime.

 

Assim, apenas esses povos subdesenvolvidos é que estariam propensos à prática de fraudes e golpes iguais a esse cometido agora pela empresa alemã. Note-se que, injustamente, o Paraguai é sinônimo de falsificação, e o Brasil é tido como a pátria do “jeitinho malandro”.

 

O outro mito, persistente também, é que o mercado seria um sinônimo de eficiência e progresso, com eficazes mecanismos de autocontrole (inclusive ético) representados pela competitividade dos agentes e pela liberdade transparente dos negócios, coisa que, segundo esse mito, não acontece com o setor público que seria naturalmente corrupto, burocrático e ineficaz.

 

Pouco a pouco vai-se descobrindo que a malandragem não é um traço exclusivo de brasileiros ou latino-americanos, e o mercado nunca foi parâmetro de ética e eficiência absoluta. Os povos do Norte (tão desenvolvidos) e os mercados do mundo (tão globalizados) não estão acima nem abaixo de ninguém (nem da linha do equador), estão simplesmente juntos e misturados.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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