Governo incompetente ou refém

Governo incompetente ou refém

Desde aquele estúpido NÃO VAI TER COPA do ano passado que a presidenta Dilma está sob o bombardeio implacável da mídia burguesa, de uma oposição irresponsável e de alguns segmentos mais conservadores da sociedade brasileira.

 

Uma vez reeleita em 2014, a presidenta Dilma não teve tempo de fazer outra coisa senão defender-se. Há nove meses que se defende dos ataques de seus opositores inconformados com o resultado das urnas, do cerco implacável da mídia partidária, e até mesmo das ameaças, ora veladas ora explícitas, de sua própria base aliada no Congresso Nacional.

 

Mal começou o segundo mandato e a presidenta já se viu encurralada pelo rentismo que, aproveitando a crise política e econômica, enfiou-lhe goela abaixo um ministro banqueiro e um pacote de reformas nitidamente neoliberal que penaliza os pobres e a classe trabalhadora, contrariando tudo o que a candidata Dilma Rousseff e o PT haviam pregado na última campanha presidencial.

 

Agora, a presidenta tem que se defender também de um processo de impeachment, instaurado levianamente pelo rancoroso jurista Hélio Bicudo (e outros juristas de menor calibre) sem nenhum fundamento jurídico, apenas com base em presunções e fatos ocorridos no mandato anterior de Dilma Rousseff.

 

Em decorrência ainda da fragilidade da presidenta, gerada por todo esse tumulto que vem desde muito antes da campanha do ano passado, o maior partido de sua base aliada (PMDB) está impondo ao Palácio do Planalto uma reforma ministerial que Dilma jamais admitiria dentro de um quadro político de normalidade.

 

Mesmo os partidos de esquerda e os movimentos sociais, que apoiam o mandato da presidenta, têm saído às ruas para protestar contra as reformas da legislação trabalhista, contra o arrocho da classe trabalhadora e contra o ajuste fiscal imposto ao governo pelas forças do neoliberalismo.

 

Por fim, em razão da crise mundial do capitalismo que se instalou desde 2008, fazendo com que até mesmo países desenvolvidos tenham crescimento negativo nos últimos anos (o Canadá fechou com déficit orçamentário durante três anos consecutivos), o mandato de Dilma Rousseff enfrenta todas as dificuldades e os desgastes naturais da crise econômica global.

 

Assim, sob o fogo cruzado de uma mídia monopolizada e poderosa, sob a pressão das forças neoliberais que exigem juros altos e sacrifício da classe trabalhadora, sob os ataques de uma oposição incendiária e mesquinha, sob as traições de sua própria base aliada no Congresso, e sob as condições adversas de uma economia mundial em crise, não é possível avaliar com clareza e objetividade o segundo mandato da presidenta Dilma que, a bem dizer, nem começou.

 

Apesar dessas dificuldades todas, os adversários da presidenta, os ideólogos da direita e também o senso comum têm concluído que o segundo governo de Dilma Rousseff é um fracasso que decorre, pura e simplesmente, do perfil autoritário e da incompetência político-administrativa de quem ocupa hoje o Palácio do Planalto.

 

Dizem também que, na verdade, Dilma Rousseff aplicou um enorme “estelionato eleitoral” no povo brasileiro, pois, além de fazer agora tudo ao contrário do que prometeu ontem, está “entregando” o seu governo ao PMDB e ao neoliberalismo, apenas para garantir o mandato até 2018.

 

É evidente que o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff está mesmo refém do rentismo neoliberal e da direita fisiológica. Mas, ao insistir nessa lengalenga superficial de que a culpa é da teimosia e da incompetência da presidenta, perde-se a oportunidade de refletir e conhecer as forças que realmente impuseram o “fatiamento” do governo Dilma.

 

Perde-se, pois, a chance de entender ou descobrir qual é, afinal, a misteriosa coalizão político-econômica que de fato manda neste país e que retalhou o programa do PT, desfigurando completamente o segundo mandato de Dilma Rousseff com as políticas de austeridade (“austericídio?”) e com uma agenda neoliberal que a presidenta e seu partido sempre recusaram.

 

Uma reflexão racional e responsável deveria partir exatamente desse ponto ao invés de ficar imaginando que a presidenta da república é uma incompetente ou estelionatária que, sem mais nem menos, de uma hora para a outra, da noite para o dia, resolveu abandonar suas convicções e liquidar espontaneamente o seu governo, apenas para “curtir um barato” com a cara dos brasileiros.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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