Fica muito difícil

Fica muito difícil

Por favor, entenda bem o que eu vou dizer, não queira distorcer as minhas palavras, por favor. O que vou dizer aqui é meio arriscado de dizer e pode prestar-se realmente a algumas distorções. Por isso, peço bastante atenção, pelo amor de Deus. Pois bem, digo que todo fascista, todo reacionário e todo alienado político que eu conheço era a favor do impeachment de Dilma Rousseff, e agora está a favor também da prisão do Lula. Entendeu bem, né? Eu não disse que todos aqueles que eram a favor do impeachment, e que agora querem a prisão do Lula, são fascistas, autoritários ou alienados – eu não disse nada disso, hein?!

 

Eu estou dizendo apenas – e é um simples depoimento pessoal, restrito ao universo das minhas percepções -, que os fascistas, reacionários e alienados que eu conheço (de longe ou de perto) eram pelo impeachment da Dilma e são pela prisão do Lula. Todos eles também vibraram com o “mensalão”, com o “petrolão”, com a prisão de qualquer petista e com a delirante operação Lava Jato – ah!, eles têm um outro traço em como: são todos fãs incondicionais do Sérgio Moro, do Joaquim Barbosa e do Japonês da Federal.

 

Veja agora, por exemplo, essa invasão na Câmara dos Deputados, que ocorreu ontem, quando um grupo de umas cinquenta pessoas, ou mais, entrou no plenário pedindo intervenção militar no país. Ninguém vai dizer que era um grupo de democratas ou de progressistas que estavam lá, né? Eles mesmos se diziam conservadores de direita. Pois então, a primeira coisa que gritavam era “viva Sérgio Moro”, “viva a Lava Jato”. Assustaram até os deputados da própria direita – o pastor Feliciano os chamou de “meliantes”.

 

Veja também aquela inusitada manifestação pró Donald Trump na avenida paulista, um pouco antes da eleição norte-americana. Estava lá um grupelho que se intitulava “Direita São Paulo”, ou coisa assim, apoiando o excêntrico candidato conservador do Partido Republicano e protestando contra Dilma Rousseff e contra o Lula.  Grande parte acabou na cadeia, tamanho era o despropósito da manifestação – coisa de quem nem sabia o que está fazendo, coisa de alienado mesmo.

 

Na época do impeachment era a mesma coisa. Um grupo de maluco acampou em frente ao Congresso Nacional – eram uns velhotes bombadinhos e armados até os dentes -, pedindo intervenção militar no país, destituição da Dilma e a prisão do Lula. Os seus ídolos eram Joaquim Barbosa e Sérgio Moro, carregavam bonecos do Lula como presidiário, e boneco do Japonês da Federal como herói – fala a verdade, cê vai pensar o quê disso? Que que essa turma tem na cabeça?

 

As próprias manifestações na avenida Paulista na época do impeachment dizem muito sobre os manifestantes. Era gente pra todo lado pedindo ditadura militar. Tirando foto com polícia. Acenando com bandeira dos Estados Unidos. Exibindo boneco do Lula pra cá, boneco da Dilma pra lá, máscara do Joaquim Barbosa pra cima, máscara do Sérgio Moro pra baixo, querendo prender todo mundo, fechar o Congresso Nacional, chamar o primeiro governador-geral do Brasil (Tomé de Sousa) e começar tudo de novo – fala a verdade, não dá, né?

 

E mesmo as forças políticas e econômicas que sustentaram o impeachment de Dilma e agora sustentam a “caçada” ao Lula – mídia empresarial, liderada pela Rede Globo e pela Revista Veja que já apoiaram golpe e ditadura no passado; Fiesp; UDR; Clube Militar, partidos da extrema direita; bancada da bala; bancada da bíblia; políticos reacionários como Bolsonaro, Malafaia, Ronaldo Caiado, Marco Feliciano, Eduardo Cunha, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Mendonça Filho, Henrique Meirelles, Alexandre de Morais e o próprio Temer -, também não dá, né? Todos querendo a cabeça do Lula e da Dilma. Convenhamos, essa “tropa-da-elite” é jogo duro em termos de fascismo, alienação e reacionarismo político.

 

E isso tudo sem contar aqueles movimentos de araque (MBL, Vem prá Rua etc.) criados só para o impeachment, “liderados” por supostos líderes como Kim Kataguiri, Rogério Chéquer e outros, financiados pela Ambev, que não falavam coisa com coisa. Não dá nem pra levar a sério o autoritarismo e as besteiras políticas que essa turma sustentava em praça pública, articulados com a mídia reacionária deste país, cujos veículos (jornais, tevês, rádio e revistas) lhes deram ampla visibilidade – ou você já conhecia essa gente, já lhes conhecia os compromissos ou a militância política? Duvido.

 

Então, não são as pessoas que apoiam o Lula. Que votam no Lula. Que morrem de amores pelo Lula. Que defendem o Lula. Ou que são fanáticas pelo Lula. Nem que só enxergam as virtudes da Dilma. O problema, velho, é que quando você olha a turma do lado de lá, essa turma que se juntou contra a Dilma, contra o Lula e o contra o PT, fica difícil, cara – aliás, fica muito difícil -, acreditar que eles têm razão. Que estão com a verdade. Que estão do lado bom. Que querem democracia, justiça e honestidade política pra valer. Olhando pra essa tchurma aí você vê que não dá pra encarar. Tá na cara que é fria. Não dá pra sair de braços dados com eles. Por isso, pelo naipe desses adversários, as pessoas acabam achando que, no final das contas, o Lula, a Dilma e o PT é que estão certos, eles é que têm razão – só pode ser.

 

Mas, desculpe, comandante, não quero contrariar ninguém nem muito menos ofender quem quer que seja – longe disso. Quem quiser achar que essa turma tá do lado certo, que ache. Quem quiser acreditar neles, que acredite. Quem quiser comprar essa turma e suas verdades, que compre. Mas que fica difícil fechar os olhos pra tanto fascismo e pra tanta alienação política, ah! comandante, isso fica mesmo, viu?! Mas, como eu disse, quem quiser…

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Antônio Alberto Machado é advogado e professor livre-docente da Universidade Estadual Paulista, Unesp, campus de Franca. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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