Antônio Alberto Machado: Os refugiados são nossos

foto: reprodução/DCM

Antônio Alberto Machado: Os refugiados são nossos

Nesta semana, o mundo inteiro ficou comovido com as imagens dos imigrantes que estão morrendo afogados nos mares europeus e, especialmente, com a fotografia chocante do corpo de uma criança de três anos de idade, numa praia da Turquia, que morreu na malsinada tentativa de chegar até a Europa através da Grécia.

 

São centenas de milhares os africanos, asiáticos e médio-orientais que deixaram e ainda estão deixando os seus países em busca da sobrevivência na Europa. Trata-se de um dos maiores movimentos imigratórios da história da humanidade, maior até do que a imigração provocada pela Segunda Guerra Mundial, e já são incontáveis as vítimas que sucumbiram durante as arriscadas travessias marítimas em precárias embarcações.

 

São pessoas desesperadas que fogem da pobreza, da miséria, da guerra civil e da falta de perspectiva de uma vida digna em países da África como a Nigéria, a Somália, a Argélia, o Sudão, a Líbia ou países do Oriente Médio e asiáticos como o Iraque, o Afeganistão, a Síria e o Paquistão.

 

Finalmente, o mundo está olhando para essas pessoas, e os 28 países da União Europeia já estudam um plano de acolhimento desses imigrantes desesperados. É sugestivo que uma cidade da Áustria, a pequena Nickelsdorf, tenha recebido um grande grupo de refugiados com aplausos – como se aplaudem os resistentes e os heróis.

 

Até mesmo aqueles que, desgraçadamente como eu, enxergam a humanidade como “um projeto que não deu certo” (Jean-Paul Sartre), são capazes de se emocionar com as demonstrações de solidariedade humana! Albert Camus dizia que a única coisa que pode dar algum sentido à existência do homem, mergulhado numa condição absurda, é exatamente a SOLIDARIEDADE.

 

A Europa resistiu inicialmente, mas a luta dos refugiados, dos grupos de defesa dos direitos humanos (Anistia Internacional, Human Rights Watch etc.) e da ONU parece ter prevalecido sobre o preconceito e a xenofobia, numa clara vitória da democracia e do pluralismo humanista.

 

Todavia, além do acolhimento solidário, é preciso que os países europeus, e sobretudo os Estados Unidos da América, deixem de intervir nesses países pobres fazendo a guerra, provocando a instabilidade de seus governos ou municiando governos e grupos com armas, bombas e veículos bélicos.

 

Ao recolher os refugiados, a Europa não apenas reafirma a sua tradição humanitária, como também “paga uma dívida”. E a partir daí, confirma a tese que a ciência jamais desmentiu: não há raças, nem puras nem brancas, o que há é apenas a “raça humana”, o mundo é uma grande aldeia global, uma única tribo – a tribo dos homens e mulheres essencialmente iguais entre si.

 

Depois de acolher esses imigrantes, a Europa nunca mais será a mesma. Será uma Europa miscigenada e mestiça, muito acima daquela estupidez que sempre sustentou os mitos da superioridade branca e da pureza racial.

 

Aqui de longe, do alto da nossa mestiçagem latino-americana, podemos parafrasear o estadista Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, para quem “os povos da África não são da África, são nossos”. Nós, que temos acolhido os “irmãos haitianos”, poderíamos dizer que os refugiados da África, da Ásia e do Oriente Médio não são apenas africanos, asiáticos e médio-orientais, são simplesmente NOSSOS.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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