Antônio Alberto Machado: Inocência midiática

Antônio Alberto Machado: Inocência midiática

 

Parafraseando o título de um poema do alemão Bertold Brecht, o jornalista Celso Vicenzi cunhou a expressão “analfabeto midiático” para designar aquela pessoa que, segundo o jornalista, (1) ouve e assimila tudo sem questionar, (2) orgulha-se de estar sempre bem informada pela grande mídia, (3) imagina que tudo pode ser compreendido com “pouco esforço intelectual”, e (4) não consegue perceber os “enfoques” construídos deliberadamente pela mídia para distorcer fatos e manipular informações.

 

A locução criada pelo jornalista catarinense Celso Vicenzi, “analfabeto midiático”, muito embora possa ser uma expressão didática para designar os que se informam sem crítica nenhuma, é na verdade uma expressão forte demais, e talvez até contenha alguma espécie de violência verbal que atinge a própria vítima, poupando os verdadeiros responsáveis por essa forma de (vá lá!) “analfabetismo”.

 

É importante perceber que, se há mesmo algum “analfabetismo midiático” no Brasil é porque há um abuso do direito de informar. E esse abuso se manifesta de maneira absolutamente insofismável por meio de quatro aspectos: (a) concentração da propriedade dos veículos de informação de massa; (b) vinculação da mídia ao poder político e econômico; (c) impunidade dos crimes praticados pelos “barões da comunicação”; d) manipulação interesseira dos fatos e da informação.

 

Realmente, a insustentável concentração da propriedade privada dos meios de comunicação social no Brasil, como dizia o velho Leonel Brizola, torna impossível a construção de uma democracia, pois, o oligopólio da informação, toda ela concentrada nas mãos de cinco ou seis famílias lideradas pelo Grupo Globo, impede o “pluralismo das ideias” que é, como todos sabemos, quase um “sinônimo” de democracia.

 

Além disso, aqueles que detêm o poder econômico detêm também a propriedade dos meios de comunicação com os quais fazem a propaganda de si próprios e de seus interesses de classe. A mídia empresarial constitui, naturalmente, um aparelho ideológico de difusão dos valores e da visão de mundo burgueses. Segundo o pensador italiano Antonio Gramsci, os detentores do poder material são também aqueles que detêm a “direção cultural” da sociedade, promovendo o consenso político e a uniformização do pensamento.

 

Os que têm a “direção cultural” da sociedade, consequentemente, concentram em suas mãos um grande poder político e econômico, logo, jamais poderão ser considerados politicamente “neutros” e nem mesmo “imparciais”. Por isso, é muito arriscado fechar os olhos e acreditar na “imparcialidade da mídia”. Essa é uma crença quase infantil, uma ilusão que transforma muitos cidadãos em verdadeiros “inocentes úteis” aos projetos dos poderosos.

 

Hoje, pouca gente ignora que a mídia é também criminosa. Divulga mentiras, comete calúnia, difamação e injúria, pratica falsidade ideológica e estelionato coletivo sem desconforto nenhum, na mais completa impunidade. Um exemplo recente, que fala por todos, é o caso da revista Veja com o ex-jogador Romário, em que o semanário divulgou um documento falso para caluniar o hoje senador, ou seja, praticou dois crimes numa notícia só: falsidade ideológica e calúnia – sem contar o estelionato cometido contra a opinião pública.

 

Por fim, já não é mais segredo pra ninguém que a grande mídia manipula fatos, cria factoides, sonega informações, mente à vontade, replica notícias falsas, faz interpretações enviesadas, pratica o chamado “pinçamento”, cria manchetes bombásticas nas primeiras páginas e esconde notícias nas páginas internas, enfim, ilude a opinião pública ao sabor de suas conveniências e projetos político-econômicos.

 

Desse modo, soa contraditório defender a liberdade de expressão e de pensamento, deixando-se aprisionar passivamente pelo discurso dos “donos” da comunicação de massa. É uma grande ingenuidade, dessas que custam muito caro à democracia, imaginar que a mídia é “neutra”, “imparcial” ou “politicamente desinteressada” e que, por tudo isso, deve ser mantida fora de qualquer controle, acima do bem e do mal.

 

Aqueles que desejam preservar a autonomia do próprio intelecto, que pretendem manter o pluralismo do pensamento, que tencionam exercitar o “senso crítico” em oposição ao “senso comum”, que não querem “alugar o cérebro” aos magnatas da informação, precisam superar algumas crendices, a começar pela superação do mito da imparcialidade ou neutralidade política da mídia.

 

Além disso, as “vítimas midiáticas” precisam deixar de confundir “democratização da mídia” com “prática de censura”, e abandonar a identificação muito comum entre “desconcentração do poder midiático” e “controle dos conteúdos da informação”, pois, do contrário, continuarão ecoando (sem perceber) o discurso e os argumentos dos “imperadores da mídia”, esses poderosos que querem continuar praticando a libertinagem em nome da liberdade.

 

Em nenhum país do mundo democrático o poder da mídia é tão concentrado e tão fora de controle como no Brasil. Aqui, esse poder é tão forte que até usurpou do sistema escolar e da universidade o papel de formar consciências e divulgar o conhecimento, assumindo um protagonismo arbitrário e nocivo (algumas vezes criminoso) nessa tarefa de “fazer a cabeça” da coletividade.

 

Assim, seria muito saudável que a banda “bem informada” da sociedade brasileira, que se entrega docemente ao noticiário da TV e às “verdades” veiculadas pela grande imprensa tradicional, procurasse superar de vez a “síndrome da cabeça de mídia”, pois essa “síndrome” tem feito muito mal à consciência política das pessoas, à normalidade institucional do país, aos interesses da economia nacional e à nossa frágil, fragilíssima democracia.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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