Antônio Alberto Machado: A política e os neopentecostais

Antônio Alberto Machado: A política e os neopentecostais

Numa entrevista concedida ao programa Roda Viva da TV Cultura, exibido no último dia 24 de agosto, o historiador Boris Fausto da USP considerou que já é muito preocupante o papel e o poder que algumas igrejas neopentecostais têm exercido no âmbito da política brasileira.

 

Para o renomado historiador, essas igrejas fincaram fortemente as suas raízes no Congresso Nacional, onde o evangélico Eduardo Cunha, que até ontem pertencia ao chamado “baixo clero” da política brasileira, preside a Câmara dos Deputados e é o terceiro homem na sucessão presidencial.

 

Do ponto de vista da simbologia do poder, é muito sugestivo que o deputado Eduardo Cunha tenha permitido, ou até mesmo convocado (não sei), a realização de um culto evangélico, com direito a música gospel, nas dependências da Casa Legislativa que preside. Todavia, como o Estado é laico, sem religião oficial, as dependências dos poderes da república não devem se prestar à realização de cerimônias ou rituais religiosos como cultos, missas, sessões etc.

 

O fenômeno da interferência religiosa no poder estatal não é novo, e a igreja católica tem uma longa história nesse terreno. Mas, na referida entrevista da TV Cultura, o professor Boris Fausto chamou a atenção para um problema específico das igrejas neopentecostais que nem sempre fica muito visível e não está suficientemente compreendido.

 

Segundo ele, o grande problema dessas igrejas para a democracia é que os votos dos fiéis são definidos pelos “critérios político-religiosos” do pastor. Ou seja, comunidades inteiras acabam votando nas eleições como um “rebanho”, de maneira uniformizada, sob as orientações da igreja que transforma o púlpito num palanque político, suprimindo o mecanismo do voto enquanto escolha livre, individual e consciente.

 

Não é por acaso, portanto, que alguns têm chamado o atual Congresso Nacional de “Congresso BBB”, quer dizer, um parlamento dominado pela “bancada da BALA”, pela “bancada do BOI” e pela “bancada da BÍBLIA”. Logo, também não é mero acaso que esse Congresso, comparado a legislaturas anteriores, exiba uma das composições mais conservadoras dos últimos tempos.

 

É oportuno lembrar que as igrejas neopentecostais deitaram também as suas raízes no campo da mídia, onde têm a propriedade de rádios e TVs com enorme influência sobre a opinião pública no país. É justamente essa influência religiosa que tem contribuído para disseminar ideias e convicções ultraconservadoras sobre costumes, comportamento e política.

 

O conservadorismo religioso não é um fenômeno novo, e não é propriamente uma especificidade das igrejas neopentecostais, pois as religiões em geral tendem mesmo a produzir um pensamento mais conservador, pelo natural apego a dogmas e verdades intocáveis, seja no campo dos costumes seja no que diz respeito aos valores políticos e sociais.

 

O que de fato preocupa no caso da maioria das igrejas de cariz neopentecostal, além do projeto de poder baseado em estratégias de mercado e marketing político incompatíveis com objetivos genuinamente religiosos, é o conservadorismo fundamentalista que favorece a discriminação, o preconceito, o racismo, a homofobia, o moralismo obsessivo e todo tipo de intolerância, inclusive a intolerância religiosa.

 

Aliás, diversas religiões afro-brasileiras (umbanda, candomblé, quimbanda etc.) e seus seguidores têm sido crescentemente atacados por líderes e adeptos de algumas igrejas neopentecostais, o que vem motivando até mesmo o aforamento de diversas ações na justiça, em diversos Estados brasileiros, com a finalidade de garantir a essas religiões de origem africana a plena liberdade de culto.

 

Não há democracia real (ou material) sem as liberdades políticas de votar e de ser votado; não há democracia de fato sem as liberdades civis que garantem o multiculturalismo, bem como a plena diversidade racial, religiosa e sexual; e nenhuma democracia se sustenta senão sobre as liberdades sociais que asseguram trabalho justamente remunerado, igualdade social e dignidade humana.

 

Nos termos do art. 5º, VI, da Constituição da República, o direito de crença é um direito fundamental que protege também o neopentecostalismo. Mas, é preciso lembrar que esse direito não é absoluto e, portanto, não está acima do direito à diversidade religiosa (igualmente fundamental) nem pode sobrepor-se aos valores democráticos assegurados pela Carta Magna que veda qualquer forma de preconceito, discriminação e intolerância.

 

Por tudo isso, parece que há motivos de sobra para que nos preocupemos com os impactos políticos de um certo “conservadorismo religioso”, difundido pelas igrejas em geral, mas, sobretudo, por algumas religiões neopentecostais, cuja pregação evangélica fundamentalista pode ameaçar direitos individuais básicos, bem como os valores e o desenvolvimento da democracia social, política e cultural no país.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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