A matéria do tempo

foto: reprodução Facebook

A matéria do tempo

Calhou-me de ler ainda há pouco, de enfiada, um após o outro, dois romances de dois jovens escritores portugueses. Primeiro foi a obra de Válter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis, depois o vigoroso e originalíssimo romance Galveias, de José Luís Peixoto.

 

Em ambos, pareceu-me que os dois escritores lusitanos, por coincidência, tratavam da questão do tempo, mais precisamente o tempo da vida humana, o que, por óbvio, sempre envolve o angustiante problema do declínio, da degenerescência e da incontornável finitude do homem.

 

O mal de andar assim a ler um livro atrás do outro, ansiosamente, como se fosse uma necessidade ou um compromisso inadiável, é que no final das contas acabamos por misturar as estórias e até os autores.

 

Assim é que já não consigo mais identificar com segurança a autoria de duas frases que encontrei nesses dois livros, as quais pretendo mencionar aqui, ambas sobre o tempo e a velhice. Já nem sei, portanto, onde é que as li, se nas páginas de Hugo Mãe ou se no trabalho do talentoso galveense José Luís Peixoto.

 

De qualquer forma, as frases estão lá, num ou noutro livro. E foram exatamente elas que me fizeram concluir que os dois romancistas portugueses, nas suas respectivas obras, estavam às voltas com o problema do tempo e do envelhecimento.

 

Devo dizer também que ambas as frases ficaram-me martelando no cérebro durante alguns dias, e acabaram por ocupar-me com essas questões fundamentais da existência fugaz e da decrepitude, que são questões que nos ocupam só muito mais tarde, geralmente quando já é tarde demais.

 

Seja como for, apesar da insistência com que se instalaram na minha memória, e dos efeitos que produziram sobre as minhas certezas, uma hora as tais frases acabarão ficando também para trás, como tudo, especialmente agora em que já me assanho para iniciar a leitura de uma alentada biografia do líder Simon Bolívar.

 

Mas, andemos às frases.

 

Estou quase certo de que a primeira delas se encontra mesmo no texto de Válter Hugo Mãe, quando o personagem central do seu livro se descobre subitamente velho, esquecido pelo filho e deixado num asilo pela filha, pelo genro e pelos netos.

 

Morando agora num lar estranho e no meio de gente estranha, sob os cuidados de médicos, paramédicos e funcionários desconhecidos, convivendo com os novos amigos, amigos que ele não escolhera e que jamais tinha visto, pareceu-me, pela leitura do romance, que o personagem Silva experimentava ali a sensação inapelável das rupturas… e toda a solidão do mundo.

 

Em meio a tanta gente desconhecida, sozinho, mergulhado definitivamente na sua nova circunstância e no seu cotidiano inesperado, começou a revirar alguns fatos da vida pretérita, que até então ele julgava uma vida definitiva. Mas, em dado momento, afastou as suas recordações com a frase fatal, a tal frase que tanto me impressionou: “envelhecer é entregar-se nas mãos dos outros”.

 

O remédio imaginado pelo autor (e creio que esse autor seja mesmo o Válter Hugo Mãe no seu A máquina de fazer espanhóis) é que os velhos, na velhice, “vivam por fragmentos”, isto é, “por etapas ou por fases”, sem grandes ilusões, e sem maiores expectativas quanto ao futuro e à continuidade do próprio tempo.

 

Saltando agora para as páginas do Galveias (creio que tenha sido mesmo nessas páginas), encontrei a outra frase que também me incomodou bastante. Na altura em que tratava dos efeitos devastadores do passar dos anos, escreveu o autor galveense: “o material do tempo é o mais forte de todos”.

 

Nesse livro, José Luís Peixoto expõe, em perfeita plástica, o que o tempo é capaz de fazer com tudo, com as coisas, com as pessoas, com os amores, com as famílias, com as ilusões, enfim, com a vida de cada um. Até a sua pequena Galveias, que continua pequena ali ao pé de Ponte de Sor no Alentejo, já não é mais a mesma, já não tem mais a “mesma gente nem a mesma filosofia”, sobretudo após o “Portugal europeu” dos anos 80 em diante.

 

Por alguns dias fiquei encasquetado com essas duas frases: uma sobre a fragilidade do homem, a outra sobre a resistência do tempo. Fiz várias associações entre elas, comparei-as, uma com a outra, e considerei-as frases irmãs. Foram várias também as conclusões. E depois de algumas idas e vindas consegui extrair delas apenas o óbvio: o tempo permanece, a vida passa; a permanência do tempo atesta a impermanência da vida.

 

Claro que não me foi possível evitar as incertezas, as vertigens e os calafrios. Enquanto a dureza do tempo se mostra como a matéria mais forte que há no mundo, a matéria da vida, ao contrário, parece ser de uma fraqueza insuportável, aterradora.

 

Bem nos dias em que eu ruminava no cérebro essas frases, enfiei-me por uma dessas trilhas que faço de vez em quando, a bordo do meu velho jeep, justamente para sondar manhas e artimanhas do tempo. Como que por castigo, deparei-me com a seguinte frase na entrada de uma pequena venda no meio do mato: “ame tudo o que você tem antes que o tempo te obrigue a amar tudo o que você perdeu”.

 

De novo, o tempo… as perdas!

 

Não conheço a autoria dessa frase e, com a licença do autor, julguei logo que fosse mais uma dessas tantas que formam o repertório da chamada “filosofia estradeira”. Os frasistas não escolhem lugar, e penso que ninguém terá designado o sítio onde eles devam pôr os seus ditos e as suas “filosofias”: se nas páginas dos romances, nos tratados filosóficos, nos para-choques de caminhões ou na porta de uma vendinha qualquer.

 

O fato é que, assim como assim, juntei essas frases todas e gastei boa parte do meu tempo atinando com as incertezas, a fragilidade e a desconfortável leveza da existência humana, a meditar sobre se o tempo é mesmo a matéria mais forte que existe. Todavia, pensando bem, melhor seria que eu gastasse apenas o meu tempo com essas inquietações todas e não andasse aqui a gastar o tempo dos outros.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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