A frase do ano

A frase do ano

Os frasistas nem sempre desfrutaram de grande prestígio ou de grande consideração entre os letrados e os literatos. Basta ver que os nossos dicionários, por exemplo, desde Caldas Aulete até Antônio Houaiss, passando pelo popularíssimo Aurelião, sempre definiram os frasistas como “autores de frases ocas e pomposas” ou, quando muito, “autores de frases de efeito”.

 

Todavia, há frasistas notórios e espirituosos, como é o caso, por exemplo, do filósofo francês Voltaire, do estadista inglês Winston Churchill, do nosso grande Machado de Assis, dos nossos Nélson Rodrigues, Millôr Fernandes e Mário Quintana, do poeta argentino Jorge Luís Borges, do escritor José Saramago… e de outros tantos que nem sei quantos.

 

Dentre os existencialistas que me impressionaram desde cedo, lembro sempre uma frase do francês João-Paulo Sartre que dizia: “o importante não é o que fazemos da vida, mas o que fazemos com o que vida fez de nós”. Outro existencialista de nomeada, Alberto Camus, tinha uma frase lapidar para definir o absurdo da condição humana. Dizia ele: “o absurdo não está no homem nem no mundo, mas na relação do homem com o mundo”.

 

E por aí vai. As frases, “ocas” ou “pomposas”, por vezes conseguem sintetizar algumas ideias e valores relevantes. Até a minha avó, que era uma portuguesa austera, corajosa, de poucas letras e muitas luzes, costumava produzir as suas frases de espírito, como esta, por exemplo, que ela usava quando queria encorajar alguém: “o que tem que ser será, amanhã é outro dia e Deus dirá o que há de ser”.

 

Ora, seja lá qual for a consideração que se tenha para com as frases e os frasistas, neste final de ano, movido quem sabe por aquela curiosa mania que temos de fazer “balanços” e “retrospectivas” nessas ocasiões, ocorreu-me eleger a frase que em 2015 teria me impressionado mais, ou seja, aquela que no meu entender seria, digamos, “a frase do ano”.

 

Encontrei-as muitas, é verdade.

 

Mas, se tivesse de escolher apenas uma, apenas aquela que, por acaso ou por insondáveis razões, teria me tocado de modo realmente especial, escolheria a frase do jovem escritor português, José Luís Peixoto, lançada aparentemente sem maiores pretensões logo no início de seu belo romance, Galveias, cuja obra venho de ler ainda há pouco.

 

A frase em si me pareceu bastante forte, o romancista que a produziu pareceu-me também bastante inspirado, mas é claro que pode ter havido algum outro motivo, sabe-se lá, para que eu tenha me impressionado tanto com o escritor galveense quando ele sentenciou de maneira categórica: “O DESTINO NÃO TEM CONSCIÊNCIA, SÓ INGRATIDÃO”.

 

Feliz Ano Novo!

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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