A falsa vitória da direita

A falsa vitória da direita

Encerradas as eleições municipais deste ano, os “entendidos” chegaram à conclusão de que o eleitorado brasileiro rejeitou nas urnas os candidatos e partidos de esquerda, e de centro-esquerda, preferindo eleger os políticos mais conservadores, à direita do espectro ideológico. Essa é uma leitura mais ou menos unânime, feita por analistas conservadores, e, inclusive, pelos próprios órgãos da mídia burguesa – grandes jornais e grandes revistas -, que sempre tiveram o cuidado de não distinguir o eleitorado ideologicamente entre direita e esquerda. E que sempre negaram essa dicotomia – dizendo que ela já não tem mais sentido.

       

Não tem, uma ova!

       

Tanto tem que a mídia conservadora vem falando, abertamente, em “guinada à direita”, “derrocada da esquerda”, “vitória dos conservadores”, “força da direita”, “decadência da esquerda”, e, pra resumir a história, o jornal Folha de S. Paulo, conhecido por suas posições supostamente “neutras”, que sempre buscou dissimular a divisão entre direita e esquerda, chegou a estampar a seguinte manchete interna: A DIREITA VENCE A ESQUERDA DEFINITIVAMENTE.

 

 Acabou, portanto, o pudor e o mistério: o eleitorado brasileiro está mesmo, como sempre esteve, dividido entre conservadores e progressistas; entre eleitores de direita e eleitores de esquerda. E essa descoberta se deveu, certamente, à intensa polarização político-ideológica vivida pelo país desde a reeleição de Dilma Rousseff. Antes dessa reeleição, a gente mal sabia em quem as pessoas votavam, ninguém se preocupava (exceto os mais politizados) se estava votando na direita ou na esquerda, o voto não era “ideológico”. Pois bem, agora é.

       

E a direita, suposta vencedora das eleições de 2016, faz a seguinte conta: o maior partido de esquerda (PT) não venceu em nenhuma capital de estado (exceto no Acre); perdeu todas as prefeituras do ABCD paulista, que era seu grande reduto eleitoral; tinha setenta prefeituras no Estado de São Paulo e ficou com apenas oito. Para destacar ainda mais a acachapante vitória da direita, concluem: o PSDB foi o grande vencedor nestas últimas eleições: sozinho, vai governar um quarto da população brasileira.

         

Mas, calma aí!

         

Se é verdade que a esquerda realmente sofreu uma enorme derrota (aliás, previsível) nestas eleições, isso não significa que a direita foi a grande vencedora. Os votos brancos, nulos e as abstenções é que venceram. Em pelo menos nove capitais de estado, incluindo o maior colégio eleitoral do país que é a capital paulista, o não-voto foi superior à votação obtida pelos eleitos, ou seja, brancos, nulos e abstenções derrotaram os “vencedores”. Se a esses votos somarmos a votação obtida pelos candidatos derrotados da esquerda, pode-se concluir que a vitória da direita não foi assim… tãããooo fulgurante como dizem – aliás, no fundo, a direita saiu foi derrotada, isso sim.

         

E além disso, nunca é demais lembrar, o candidato favorito à presidência da república para 2018, segundo as últimas pesquisas – e segundo o silêncio das pesquisas que a direita não faz agora por temer o resultado delas -, não é nenhum candidato conservador, não. Não é nenhum desses vitoriosos representantes da direita, não. O candidato favorito para 2018 você sabe quem é – sabe sim, não sabe? Então, cadê a vitória acachapante da direita que venceu definitivamente a esquerda? – Eu não caio nessa, não.

         

Os governantes da direita reacionária que assumirão o poder municipal – e inclusive o golpista que tomou o poder federal -, devem olhar o resultado das últimas eleições com mais cautela. Essa suposta “vitória arrasadora da direita”, como dizem alguns, bem-feitas as contas (e noves fora), não é uma vitória que dá carta branca para enfiar qualquer coisa goela abaixo do povo. Como, por exemplo, enfiar as políticas neoliberais que vêm por aí. Nem essa reforma da educação que é uma verdadeira piada – haja vista que hoje temos mais de 1.000 escolas ocupadas em vários lugares do país, num extraordinário movimento de resistência política.

         

Na verdade, a grande derrotada nestas eleições de 2016 foi a própria política – que vem sendo criminosamente criminalizada pela mídia burguesa. A bem dizer, o eleitorado brasileiro rejeitou a política e os políticos como um todo. A direita obteve mais cargos nas urnas única e exclusivamente por causa da máquina de propaganda montada pela mídia para promover seus candidatos e “destruir” os candidatos da esquerda – e isso é muito óbvio, só não vê quem não quer. Ou não consegue. Ou não pode.

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Antônio Alberto Machado é advogado e professor livre-docente da Universidade Estadual Paulista, Unesp, campus de Franca. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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