A biblioteca

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A biblioteca

A minha biblioteca – se é que a posso chamar assim – é muito modesta, aliás, modestíssima. Orça aí, pelas minhas contas (e quando muito), à volta de três mil ou três mil e quinhentos livros, talvez.

 

Não é uma biblioteca organizada. Os livros não estão catalogados. Estão dispostos pelas estantes meio a esmo, segundo os meus próprios critérios de uso e leitura, quer dizer, segundo critérios que certamente passam longe, provavelmente muito longe, da técnica e das normas observadas pelos bibliotecários de profissão.

 

Mas, penso eu, a minha biblioteca tem pelo menos um mérito: o acervo dela está mais ou menos bem “apurado”. Mercê de sucessivas mudanças, de endereço e de vida, fui pouco a pouco descartando os livros descartáveis – se é que os há.

 

Ficaram – sempre segundo os meus desordenados critérios – tão somente aqueles que seriam os mais importantes, os mais úteis e até mesmo, por que não o admitir, aqueles livros com os quais mantenho alguma relação, vá lá!, meio afetiva.

 

Em resumo, ficaram na minha pequena biblioteca apenas os livros que eu próprio julguei que devessem lá ficar!

 

É claro que, até mesmo por força do ofício, há uma predominância natural dos livros jurídicos. Mas, a literatura, a política e a filosofia não ocupam um espaço muito menor nas minhas estantes – e esses livros já não estão ali por mero dever de ofício, e sim, por pura curiosidade ou “espanto”, conforme diria Aristóteles.

 

O poeta Fernando Pessoa disse certa vez que o rio da sua aldeia era muito mais belo do que o famoso Tejo, simplesmente porque o Tejo, embora famoso, não era o rio que corria pela sua aldeia.

 

Mal comparando, e numa paráfrase possivelmente forçada, talvez eu pudesse dizer algo parecido: a minha “biblioteca” é muito mais importante do que as bibliotecas todas que eu encontrei por aí, simplesmente porque ela é a biblioteca que, digamos, calhou de instalar-se dentro da “minha aldeia”.

 

Apesar de ser uma biblioteca bastante modesta, e de fato o é, sempre há quem se impressione com a quantidade de livros, com a variedade dos títulos e também com a disposição meio “gótica” das estantes, que apontam para o alto, quase chegando ao teto do segundo piso.

 

Não raro, entre incrédulos e encabulados, há aqueles que acabam por inquirir-me: “mas, você já leu todos esses livros?”.

 

Na verdade, até já decorei uma resposta àqueles que eventualmente me fazem essa pergunta. Vivo repetindo: “isto é uma pequena biblioteca, e nela há livros de consulta, livros de pesquisa, livros raros; e há naturalmente os livros que eu li, alguns que reli e até uns poucos que eu próprio escrevi. Costumo lembrar também que há livros que eu li, mas já nem tenho certeza se ainda continuam ali”.

 

Os livros sempre foram uma espécie de paixão, e até um fascínio, não nego. Não diria que sou um bibliófilo, um amante de livros, mas é certo que eles sempre me impressionaram muito, tanto pela forma clássica (apesar destes tempos digitais) quanto pela utilidade, e, sobretudo, pela magia de serem instrumentos de cultura, portadores de ideias, de visões, de histórias, de imaginação e até de sonhos ou devaneios.

 

Todavia, depois de ler o Auto de fé, do escritor e ensaísta Elias Canetti, confesso que fiquei um pouco ressabiado com os livros e, por conseguinte, ressabiado também com a “minha biblioteca”.

 

O encanto não se perdeu, é verdade. Mas, devo admitir que o escritor búlgaro-judeu me trouxe alguma inquietação com a sua figura do “bibliófago”, isto é, aquele indivíduo que devora livros, que vive entre os livros, que respira livros e que não consegue enxergar nada além dos livros.

 

A vida do personagem principal de Auto de fé, o filólogo Peter Kien, se passava exclusivamente entre as livrarias que ele frequentava e a biblioteca de “invulgar magnitude” (25 mil volumes) que mantinha em sua casa, rigorosamente trancada, com medo de que os seus livros pudessem sofrer algum tipo de avaria, de roubo ou incêndio.

 

A obsessão e o mundo de Peter Kien eram a erudição e os livros. A biblioteca representava para ele os limites do mundo, dificultando o seu contato com a realidade concreta. Peter Kien somente extrapolava os limites de seu mundo erudito e hermético quando começava a cobiçar novos livros, o que o obrigava a fazer rápidas incursões pelas livrarias da cidade.

 

Desde menino ouço dizer que os livros, assim como os cachorros, são realmente “bons amigos”. E o são, decerto. Aliás, o dito popular afirma que o livro é sempre “um presente de amigo”, por isso mesmo, constitui “uma boa companhia” em qualquer circunstância.

 

Os livros, afinal, trazem muito saber, mas quem é que garante que eles trazem também a sabedoria? Digo isso porque há muita cultura livresca, erudita e até estética, porém, abstrata e vazia de conteúdo real.

 

Não vou dizer que essa cultura ilustrada ou clássica, recheada de erudição, seja de todo inútil, mas, na maioria das vezes ela é egoísta e egocêntrica, pois serve apenas ao deleite intelectual do próprio erudito, e nada mais.

 

Depois de ler o Elias Canetti, comecei a desconfiar que há muita vida e muita sabedoria além dos livros e das bibliotecas. Senti que não se deve enfiar a vida nos livros, tampouco deve-se imaginar que os livros são sempre, em qualquer circunstância, a melhor companhia e a solução para tudo – inclusive para as coisas que parecem não ter solução.

 

No livro A estátua e a pedra, o escritor José Saramago se dizia preocupado em falar mais de vida do que de literatura. Arrematava ele: “sem esquecer que a literatura está na vida e que sempre teremos perante nós a ambição de fazer da literatura vida”.

 

Outro dia, apareceu-me uma goteira na biblioteca. A água estava ameaçando alguns livros e eu subi ao telhado para verificar a origem do problema. Não consegui identificar nenhum ponto por onde pudesse penetrar a água da chuva. Esperei mais alguns dias, choveu de novo, e a goteira voltou com aquela insistência irritante. Lá fui eu outra vez pra cima do telhado da biblioteca – e nada.

 

Chamei um desses homens práticos; desses que lidam materialmente com os problemas da vida e do cotidiano; desses que julgam saber pouca coisa, mas que, no final das contas, sempre acabam resolvendo quase tudo, ou, pelo menos, tudo aquilo que precisa ser imediatamente resolvido.

 

Ele chegou discreto, passou pela parte inferior da biblioteca, avaliou a disposição e a altura das estantes, mantinha os olhos bem atentos e disparou em seguida: “quanto livro, hein!, você já leu tudo isso?”.

 

Aparentemente desinteressado da minha resposta, foi logo perguntando como é que deveria fazer para subir “em riba” do telhado. Apontei-lhe o lugar e ele subiu com uma destreza impressionante.

 

Voltou em poucos minutos trazendo o diagnóstico categórico: a água da chuva penetra por entre a parede e o rufo. Segundo ele, era só aplicar um pouco de “pinche”, e pronto. Perguntei-lhe o que era esse “pinche”. E ele disse que era aquilo com que se faz o asfaltamento de ruas e estradas. Perguntei-lhe então se isso seria o mesmo que “betume” ou “piche”. Ele disse: “é isso mesmo, é pinche”.

 

Enfim, o homem prático aplicou o tal “pinche” e, algumas chuvas depois, constatei que o problema da goteira ficara definitivamente resolvido. Os meus livros já não corriam mais nenhum risco, e a minha biblioteca, enfim, estava livre de qualquer desastre… lembrei-me na hora do “bibliófago” de Elias Canetti.

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Antônio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre docente do Curso de Direito da Unesp/Franca-SP. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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