Quarta Revolucionária: Cinema, Periferia e Revolução

/ Por Agência Rede PT Ribeirão

Arte: Ana Favaretto

Quarta Revolucionária: Cinema, Periferia e Revolução

Durante os meses de junho a agosto, o Centro Cultural Newton Mendes Garcia irá sediar, às quartas-feiras, sempre às 19h, a Quarta Revolucionária, com exibição de filmes que retrataram revoluções e que tomaram partido frente a tais processos, impulsionando indivíduos a agirem da mesma maneira.

 

As obras são clássicos do cinema e, não por coincidência, realizadas em países periféricos: as revoluções, nos séculos XX e XXI, inclusive as socialistas, ocorreram não nos países centrais, mas na periferia, na Rússia, África, Ásia e América Latina. O próprio Marx, em que pese a sua hipótese de transição para o socialismo nos países centrais, anteviu a possibilidade de uma passagem direta ao socialismo na Rússia, sem acessar o capitalismo, como se vê em sua correspondência com os populistas russos.    

 

Nem sempre as revoluções retratadas nos filmes foram vitoriosas, mas todas foram processos de profundas consequências históricas e que deixaram ensinamentos ainda hoje válidos.

 

Por motivos óbvios, são enfatizados América Latina e Brasil. O último filme da mostra, O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, não se refere propriamente a um processo revolucionário, mas de transformação, as iniciadas no Brasil a partir de 2003 com Lula, e, mais especificamente, à reação a tal mudança – esta sim digna de processos contrarrevolucionários – por parte das camadas médias. 

 

Após as projeções, a plateia poderá interagir com o cientista político e advogado Jorge Roque, que irá comentar sobre a forma, a importância estética dos filmes escolhidos, além do conteúdo, destacando as relações de classe que constituem o objeto de todas as obras a serem trabalhadas.

 

Programação:

20/06 |Outubro

Debatedores: Jorge Roque e Edmundo Raspanti

Eisenstein e Aleksandrov, Rússia, 1927.

Filme dirigido por Eisenstein e Aleksandrov, realizado em 1927, a partir da encomenda do Partido Comunista da União Soviética, para a comemoração dos dez anos da Revolução Russa. Outubro retrata de forma realista os principais acontecimentos da Revolução Russa, desde a queda do czarismo, em fevereiro de 1917, até o triunfo dos bolcheviques, em outubro do mesmo ano. Tem-se a ação das principais classes e potências estrangeiras em luta. O protagonista do filme é o proletariado da então Petrogrado. Inserida posteriormente, a trilha do filme é do grande compositor Shostakóvich. De Eisenstein, pode ser dito mais do que de qualquer outro, que é o criador do cinema moderno, tendo influenciado os principais movimentos cinematográficos do século XX.

 

04/07 | Queimada!

Debatedor: Jorge Roque

Pontecorvo, Itália, 1969.

Também de Pontecorvo, feito em 1969. Diferentemente dos filmes anteriores, não se está diante de uma revolução real, mas de um tipo de revolução, a de libertação colonial na América Latina do final do século XVIII e da primeira metade do XIX. Um agente inglês é enviado a uma ilha submetida ao domínio colonial português em aliança com a elite local. Tal elite pretende se livrar das amarras do colonialismo. Para isso, não há outro caminho que a rebelião popular contra o regime colonial. É tarefa do agente insuflar a rebelião. Mas, trata-se de uma rebelião de escravos, que, naturalmente, não pretendem dar por encerrada a questão com a mera emancipação política. Daí o conflito. Novamente, a trilha é de Morricone. Marlon Brando é o agente britânico e, ainda que se trate de um processo de independência na América Latina, Pontecorvo faz referências não apenas ao Haiti de Toussaint Louverture, mas também à Revolução Cubana e às revoluções anticoloniais do século XX.

 

11/07 | Memórias do Subdesenvolvimento

Debatedor: Jorge Roque

Gutierrez Alea, Cuba, 1966.

O filme se passa em 1961, em plena radicalização da Revolução Cubana, da passagem para a construção do socialismo. Um escritor de classe média alta, que vive de aluguéis, se recusa a abandonar Cuba, como o restante de sua família. Não quer abandonar suas raízes, mas, mais do que isso, não se identifica à sua própria classe. Entretanto, tampouco consegue se identificar ao povo cubano ou aos revolucionários cubanos dirigentes da Revolução. O solo em que vivia desaparece, e Sérgio (o escritor), mais próximo da cultura europeia do que a cubana, fica sem lugar na nova sociedade e entra em um processo de degeneração pessoal. O filme combina ficção com imagens reais, mantém o estilo de documentário comum ao neorrealismo italiano (Pontecorvo) e comum à Eisenstein, mas a sua perspectiva da Revolução Cubana não é a de um apoio incondicional, mas crítico. 

 

18/07 | Terra em Transe

Debatedores: Jorge Roque e Ricardo Jimenez

Glauber Rocha, Brasil, 1967.

Terra em Transe, tal como Queimada!, não se passa em um país real e, da mesma maneira que Queimada!, pode ser entendido como um tipo, uma forma genérica das derrotas da via latino-americana de desenvolvimento nos 60 e 70 do século XX, em especial a via brasileira, baseada em uma aliança, por meio do Estado, entre setores das camadas médias, das camadas populares e a burguesia nacional. Um intelectual de esquerda é um dos construtores da candidatura de um líder populista que, confrontado pelas elites brasileiras, pelo imperialismo norte-americano e, após, pela própria burguesia nacional, decide não resistir. As alternativas se estreitam e Paulo Martins (o intelectual) passa do desespero à via armada. Com a música de Sérgio Ricardo, Terra em Transe talvez seja a máxima expressão de um dos movimentos culturais mais relevantes da história do Brasil, o Cinema Novo, e um dos filmes mais importantes já realizados.

 

25/07 | A Batalha do Chile

Debatedores: Jorge Roque

Partes I e II, Patrício Guzmán, Chile, 1975 e 1976.

Trata-se de um documentário. Mas, está de acordo com a mostra: não há, na perspectiva dos filmes selecionados, uma muralha da China entre ficção e realidade. Há, inclusive, em alguns dos filmes, a utilização de imagens reais, de filmagens dos acontecimentos reais, tal como em um documentário. Aliás, esse é um traço do cinema realista. Quanto ao documentário, este possui três partes: a primeira, denominada A Insurreição da Burguesia; a segunda, O Golpe de Estado; e a terceira, O Poder Popular. Serão exibidas apenas as duas primeiras, em razão da duração de cada uma das partes. O tema do documentário é a construção pacífica, através dos canais da democracia burguesa, do socialismo no Chile pelo governo de Salvador Allende, a política de alianças deste, as conciliações e, por outro lado, a intransigência política da burguesia e dos setores médios chilenos, inclusive dos militares, em estrita colaboração com os EUA. Guzmán analisa os principais acontecimentos do governo Allende e depois as etapas do golpe perpetrado por Pinoch,et em 11 de setembro de 1973, que inaugurou uma sangrenta ditadura e, também, em plano mundial, a aplicação das políticas neoliberais. A Batalha do Chile é considerado um dos principais documentários políticos já feitos.

 

01/08 | O Som ao Redor

Debatedor: Jorge Roque

Kléber Mendonça Filho, Brasil, 2012.

(sugestão do filme e debate ao final: historiador Sérgio Rocha).

O filme não trata de um processo revolucionário, mas seu objeto é o comportamento da classe média tradicional, de sua ideologia, autoritária e antipopular, ao menos desde a metade da década de 2000. O filme se passa no Recife e analisa as reações de indivíduos da classe média a uma milícia que cobra por segurança na rua em que residem e a toda sorte de comportamentos e perturbações psíquicas características de tal classe, em razão da posição social que ocupa, mais ainda, em razão do processo político perturbador – para ela – então em curso.

 

Serviço:

Centro Cultural Newton Mendes Garcia

 

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