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Witzel defende jogar míssil em comunidade do Rio


Foto: Tomaz Silva

Na última sexta-feira (14), o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, mais uma vez, deixou escancarado o tipo de política que ele vem tentando instaurar no estado desde que seu mandato começou em janeiro deste ano: a política do terrorismo, da violência contra pobres e do abate nas favelas. Isso porque, num evento de solenidade na Baixada Fluminense, enquanto se referia a imagens de um confronto entre policiais e traficantes na Cidade de Deus, Witzel afirmou que, se tivesse autorização da ONU, ordenaria que fossem lançados “mísseis naquelas pessoas”, fazendo referência ao crime organizado na Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro.

Diante disso, é preciso lembrar que, somente nos três primeiros meses deste ano, sob o comando de Witzel, a Polícia Militar do Rio de Janeiro foi responsável por 434 homicídios, o que representa uma média de 4 assassinatos por dia – a maior parte dos quais são resultados de operações policiais dentro das favelas, que acabam vitimizando, não somente traficantes, mas também civis inocentes, moradores das periferias, que acabam se tornando reféns de uma guerra terrorista sem fim, que historicamente vem se provando ser ineficiente no combate à violência e às drogas. São 4 homicídios por dia, que sujam as mãos da Polícia Militar de sangue e apavoram sobretudo aqueles que não têm outra escolha, senão morar nas periferias e lidar com a truculência policial e com o medo diário da morte.

É só lembrarmos dos revoltantes casos da execução do músico Evaldo, com 80 tiros, por militares do exército enquanto andava de carro com sua família; ou da operação na favela do Fallet, em abril deste ano, que acabou com 13 executados pela PM, 9 dos quais foram mortos à queima-roupa dentro de um imóvel na comunidade. Devemos lembrar também do gari William, que saiu para procurar seu filho no meio de uma operação policial na Rocinha e morreu atingido por uma bala perdida; ou ainda o mototaxista  Josileno, morto por policiais também na Rocinha; o professor de Jiu-jitsu, Jean, que, mesmo levantando suas mãos e implorando por sua vida, foi brutalmente assassinado pela PM durante um confronto no Complexo do Alemão. Ou seja, o que vem sendo posto em prática no Rio é a legitimação de execuções arbitrárias e da pena de morte, tendo como justificativa a redução do tráfico de drogas.

A questão é que a favela não produz a droga que é comercializada lá dentro. Por isso, não é na favela que deve ser iniciada uma política que tente reduzir o tráfico, muito menos quando essa política inclui colocar policiais em confronto armado direto com traficantes dentro das comunidades, pondo toda a população que vive ali em extremo risco de vida. Quantos casos de mortes por balas perdidas, denúncias de abusos policiais durante as operações, invasões domiciliares sem mandato. Enfim, quantas execuções arbitrárias que terminam impunes serão necessárias para enxergarmos que a guerra armada não é a solução para o problema das drogas?

A criminalização das drogas não é posta em prática quando os traficantes ou os usuários são brancos de classe média, frequentadores de festas rave, por exemplo, onde há uso e comercialização abusivos de entorpecentes que não são combatidos da mesma forma terrorista com que se combatem as drogas dentro das favelas. Isso deixa claro que, na verdade, a guerra às drogas é uma justificativa do estado para se criminalizar a pobreza.

Mas isso não deveria ser surpresa, se tratando de um estado governado por Wilson Witzel, que reza a cartilha do fascista Bolsonaro e vem tentando impregnar no Rio de Janeiro a ideia de que somente a truculência e a prática do extermínio poderão solucionar o problema da violência e do tráfico de drogas.

O governador, que inclusive já participou pessoalmente de operações policiais em que ordenava que atiradores de elite alvejassem pessoas do alto de um helicóptero, está nos mostrando que é defensor do pacote anticrime proposto pelo Ministro da Justiça, Sérgio Moro, o qual busca excluir os policiais militares de punição em casos de assassinatos cometidos em serviço, quando estes forem ocasionados por “surpresa, forte emoção ou medo”. Quantas execuções não serão investigadas e punidas caso todos os policiais possam justificar esses assassinatos com o discurso da “forte emoção”? Devemos realmente dar carta branca para que o Estado mate desmedidamente, mesmo sabendo que as mortes se concentram apenas nas periferias?

Por fim, é urgente que se combata a ideologia fascista do extermínio como solução para o problema da violência. Os aplausos no final do discurso terrorista de Witzel na última sexta-feira nos mostram que temos, diante de nós, uma luta incessante contra o fascismo, não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil como um todo. Sabemos muito bem quem está morrendo com a desculpa de que se está trabalhando pela segurança das pessoas. No final, são Evaldos, Williams, Josilenos e Jeans que morrem todos os dias, vítimas de uma falsa guerra às drogas que, na verdade, trata-se do  genocídio da população negra e moradora de favela.

Raphael Assis é membro do Diretório Estadual da UP no RJ

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