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Só o antipetismo poderá derrotar o antipetismo

Por Leo Texto

Quando as pesquisas eleitorais anteriores ao primeiro turno começaram a sair não foram poucos do campo petista que as acusaram de serem compradas, enviesadas, cheias de equívocos metodológicos e tudo mais que pudesse desacreditá-las. E havia um pouco de verdade nas queixas, só que ao contrário: ao “abrirem” as urnas, ou ao transmitirem os dados contidos nelas para a apuração, o candidato Bolsonaro superou todas as expectativas e quase levou a presidência do país no primeiro turno. O que muitos não queriam ver foi demostrado nos números e não só o PT não tinha a força que imaginava, como também o conservadorismo no Brasil se mostrou muito maior do que queríamos acreditar.

Essas mesmas pesquisas mostraram que o antipetismo, ou a rejeição do candidato petista, alcançou os 36% no IBOPE (e 41% no Datafolha) nos dias próximos da votação enquanto a rejeição do seu rival eleitoral ultrapassou os 40%. Enquanto a rejeição do segundo estava próxima dos votos recebidos, a rejeição do primeiro estava – no melhor cenário – sete pontos acima, ou seja, o candidato perdia para si próprio. Ora, apesar de ter sido Bolsonaro o para-raios do antipetismo, dificilmente todos os votos se direcionaram para ele, e podemos supor que parte desses eleitores optaram por Ciro Gomes formando nacos dos seus mais de 12%, outros tantos se direcionaram para as quase inexpressivas votações dos demais candidatos e há aqueles que ficaram em suas casas, formando os mais de 20% dos eleitores que não escolheram nenhum dos 13 candidatos disponíveis, mas que nada nos garante que entre eles não se expresse os mesmos números. Único elemento que joga a favor de uma possível reversão do que se esboçou no primeiro turno é o fato de muitos eleitores que rejeitam um também rejeitam o outro.

Entretanto, se estivermos certos na tese de que nem todos os antipetistas escolheram Bolsonaro no dia 07/10, então estamos diante de uma situação ainda mais complicada, pois se não o escolheram no primeiro turno, o escolherão no segundo, o que seria suficiente para dar ao candidato do PSL os poucos votos a mais que precisa para se eleger.

Ainda apresento mais uma possibilidade a ser levada em consideração. Os votos de Haddad foram puxados na região Nordeste pelos candidatos a governador, muitos entre eles eleitos com expressiva votação já no primeiro turno e quase todos apoiadores (ou sendo) do PT. Esses apoiadores não terão a máquina eleitoral no segundo turno e a expressiva votação conseguida no primeiro turno não apresenta muita elasticidade (a exceção é o Ceará, pois os votos de Ciro Gomes devem ser transferidos mais para Haddad do que para Bolsonaro). Nessa região não dá para crescer para muito além do que já se conseguiu, restando para a militância das demais regiões a responsabilidade de reverter a tragédia.

“Três estudos para figuras na base de uma crucificação” de Francis Bacon

Tendo por base Salvador, são nos bairros de classe média alta que se concentram os votos de Bolsonaro. Sei que não é essa a realidade do Sul e Sudeste do país, pois lá Bolsonaro venceu mesmo entre os de baixo, mas nas grandes cidades nordestinas o antagonismo entre os mais pobres e os mais ricos ficou espacialmente evidente. Nos bairros “nobres” de Salvador o resultado do primeiro turno foi comemorado com buzinaços e paneladas, a mesma cacofonia que embalou o impeachment de Dilma e as demais arbitrariedades direcionadas ao PT em particular, mas aos trabalhadores no geral durante os últimos cinco anos. Seria ingenuidade acreditar na possibilidade de reverter esses votos exatamente quando a vitória daquilo pelo qual eles lutam desde 2013 – quando sequestraram as ruas após as mesmas serem varridas pela repressão promovida pelo governo petista – está prestes a se concretizar. Não há desinformação nesse meio e mesmo os trabalhadores aí residentes optaram por uma identidade com os gestores e demais capitalistas ao invés de criarem uma consciência de classe, como aliás é a forma da luta de classes no Brasil desde sempre. Fizeram uma escolha pela barbárie imaginando que ela não os alcançará.

É, portanto, o antipetismo que irá decidir as eleições (e não o petismo como planejaram alguns). O antipetismo é a maior força eleitoral, mas dentro dele cabem muitos antipetismos e reduzi-lo ao fascismo é de uma miopia catastrófica.

Mesmo assim, todo o campo progressista e/ou de esquerda, em desespero, aderiu acriticamente à campanha de Haddad como se em três semanas fosse possível borrar um quadro pintado por décadas utilizando para tal uma figura até ontem completamente desconhecida pelos brasileiros não-residentes em São Paulo (onde, aliás, ele foi fragorosamente derrotado em sua tentativa de reeleição). Mais do que isso, os quase 30% dos votos recebidos por Haddad ficaram aquém das expectativas dos próprios petistas, que chegaram a vislumbrar uma vitória ainda no primeiro turno caso o candidato de fato escolhido, Lula, não estivesse preso em Curitiba. A transferência de votos de Lula para Haddad aconteceu rapidamente até onde era possível e também rapidamente bateu no teto, este muito mais baixo do que o esperado.

Esse levante ativista tenta reverter, no curto prazo que tem, o desastre que será a vitória de Bolsonaro – o quanto mais acachapante for a vitória, pior será o cenário que se apresentará e mais legitimidade terá o seu governo ultraliberal e conservador –, pois não há mesmo outra coisa a ser feita. Entretanto, é um ativismo, na maior parte dos casos, completamente afastado das lutas recentes e que perdeu (ou nunca teve) a habilidade para dialogar com os trabalhadores mais precarizados do país. Esse ativismo não domina a gramática necessária, não tem a experiência organizativa para tal e nem formou uma rede de solidariedade em torno de si. Parte de uma defesa abstrata da democracia ou de uma luta também abstrata “contra o fascismo” sem entender o que significa democracia para esses trabalhadores precarizados e sem saber que “fascismo” é uma palavra completamente vazia de significado nos dias atuais.

“Tríptico” de Francis Bacon

Mais do que isso, esse levante ativista continua apostando no poder de ataque do petismo sem perceber a virada do jogo. Ao se recusar a perceber que o antipetismo é irreversível no curto prazo – e tem força suficiente para consagrar a vitória de Bolsonaro daqui a alguns dias – acaba jogando contra a própria meta. Parte do desespero para aliviar a consciência de quem deixou para o PT toda a condução das lutas sociais e exatamente por isso nem sabe por onde começar. Mesmo a disputa através das redes sociais – onde Bolsonaro fez a cama que agora está prestes a deitar – se mostra infrutífera, devido à impossibilidade de “furar as bolhas” formadas pelos algoritmos e devido à falta de influencers de esquerda naqueles meios. Soma-se a isso a segregação socioespacial desse campo em relação aos trabalhadores mais pobres que residem em grande número em bairros periféricos das cidades brasileiras espraiadas e desconectadas, formando em algumas metrópoles, a exemplo de Salvador, algo próximo do antigo sistema de apartheid sul-africano. O fato é que a máquina da desinformação está a pleno vapor e nada poderá detê-la nos curto e médio prazos. Para cada fake news desarmada, outra dezena pipoca nos grupos de WhatsApp e nos círculos de afeto do Facebook; e as periferias das grandes cidades e os locais de trabalho se tornaram demasiadamente estranhos para uma esquerda lacradora e preocupada com a autoimagem.

Onde encontraríamos os votos necessários para derrotar Bolsonaro? Talvez em algumas cidades ainda seja possível convencer um vizinho, um parente, um colega de trabalho, mas em outras tantas cidades a segregação é tamanha e o estranhamento ainda maior que há muita pouca margem para isso. E partir para as periferias teria que ser apenas um início de uma ruptura com os modos identitário e acomodado (pelo petismo) de construir a militância que tomou conta da esquerda brasileira. De qualquer forma, ou é isso ou não será nada.

Já afirmei que o antipetismo é irreversível nesse exato momento e apostar no petismo para derrotar Bolsonaro é insistir no erro até então cometido e que nos trouxe para esse buraco. Ponto, mas desenvolvo. Se tem algo que pode derrotar o antipetismo é o próprio antipetismo, da mesma forma que foi o petismo religioso que quase derrotou o petismo pragmático no primeiro turno. Esse é o paradoxo dos dias atuais. É preciso promover o encontro do antipetismo militante de esquerda com o antipetismo dos trabalhadores não-fascistas e profundamente decepcionados com o PT.

Qualquer campanha eleitoral feita nesse exato momento deve carregar a crítica ao petismo e desmontar a dualidade presente. Reforçar o eixo do “petismo X antipetismo” é escolher pela derrota. Somente deslocando a eleição para um novo eixo, por exemplo, o do “direitos sociais e trabalhistas X precarização” ou o do “respeito à vida e à diferença X violência institucionalizada”, é que teríamos chances de derrotar Bolsonaro e dar freios à rápida ascensão do fascismo. Somente com a disseminação de uma outra concepção de fazer política poderíamos abrir espaço para conversarmos com quem definitivamente está fechado com o antipetismo entre os trabalhadores mais vulneráveis e daí poderíamos levar às urnas segmentos daqueles que não querem nem um nem outro ou até reverter um voto aqui outro acolá.

“Tríptico” de Francis Bacon

Para tanto, é preciso se desvincular do petismo e mostrar para os trabalhadores que está em jogo algo muito mais amplo. E somente quem pode fazê-lo são exatamente os antipetistas do campo progressista. São poucos, é verdade, mas reside neles a legitimidade de uma proposta que supere o atual beco sem saída no qual quase todos os brasileiros se sentem presos. São os petistas que deveriam aderir a uma campanha mais ampla do que eles mesmos e deveriam também colocar a máquina eleitoral ao dispor dessa estratégia, não o oposto. Aliás, parece que o candidato Haddad entendeu isso e atacou José Dirceu já na sua declaração do dia 08/10, o segundo da hierarquia do petismo messiânico, mas a sua cativa e religiosa militância se recusa e enxergar que o caminho é esse pois não existe outro. Porém, há limites óbvios para que o próprio PT conduza tal estratégia eleitoral e é preciso que muitos outros levem à frente o desafio.

Se não for dito aos trabalhadores mais precarizados que o PT também precisará ser derrotado nos próximos anos; que neste exato momento a escolha é pelo mal menor; que será preciso construir uma opção política – e eleitoral – ao PT de imediato; que as críticas ao PT são reais, fundamentadas; que o voto de agora é pelos direitos sociais arduamente conquistados; e que teremos 4 anos muito difíceis pela frente; será impossível ter a credibilidade necessária para conquistar a possibilidade do convencimento. Pode parecer um jogo de palavras, mas fazer campanha contra Bolsonaro, insistir no #EleNão dando ares classistas à consigna (ou à hashtag, já não há diferença), tem muito mais chances de evitar o desastre do que a adesão desesperada – ou a continuação da chantagem – que se esboça agora.

Discar treze na urna eletrônica carregará muitos significados. E ainda assim teríamos um desafio maior que é o de aprender em poucos dias como chegar naqueles que nem sabemos quem são. Entretanto, se tem algo que o ativismo destrambelhado em curso acerta é por começar hoje sabendo que amanhã será tarde. No mais, pode ser também o início – na derrota ou na vitória – de um novo ciclo de lutas e de uma nova esquerda que aprenda, na marra, com os próprios erros.

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