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Quem educará os educadores?

Edergênio Vieira*

O dia do professor e da professora no Brasil é comemorado no dia 15 de outubro. Essa data neste ano assumiu um caráter muito mais especial e significativo de sua longínqua história, que remota ao ano de 1827, dia consagrado à educadora Santa Tereza D’ Ávila, quando Dom Pedro I baixou um Decreto Imperial que criou o ensino elementar no Brasil. A data ficou esquecida por um longo período, sendo relembrada no ano de 1947 por um grupo professores do Ginásio Caetano de Campos, conhecido como “Caetaninho” numa manifestação contra as condições precárias do ensino na cidade de São Paulo. Diante da celebração daqueles pioneiros a data espalhou-se pelo Brasil, sendo oficializada por meio de feriado escolar pelo Decreto Federal 52.682 de 14 de outubro de 1963.

A luta dos professores sempre esteve e estará ligada a valorização da educação pública, gratuita, que esta seja essencialmente laica e como bem defendeu Florestan Fernandes de altíssima qualidade. A educação sempre foi o lugar inviolável do respeito à pluralidade de ideias e de concepções pedagógicas; o espaço de luta contra qualquer forma de preconceito seja de ordem religiosa, étnica, de gênero, orientação sexual entres outros. O discurso implícito e até mesmo explicito nos documentos oficiais sempre foi esse. Cabe aqui conceituar discurso, dessa forma situo o leitor de onde, por que e para quem eu falo. Discurso assentado sob as bases epistemológicas de Michel Foucault e Émile Benveniste que evidenciam que o discurso é algo que sustenta e é sustentado pela ideologia de um grupo ou instituição social. Em outras palavras o discurso é um complexo de reflexões e olhares de mundo oriundos do lugar social desse grupo ou instituição que autorizam esse grupo ou instituição se sustente como tal em relação aos grupos sociais, defendendo e legitimando sua ideologia, que é sempre coerente com seus interesses.

Se o discurso é algo que pelo descrito acima é o quê da sustentação aos enunciados e ao mesmo tempo é reforçado pelos enunciados que o realizam, é preocupante o discurso assumido por alguns educadores em redes sociais e nas instituições de educação, sobretudo públicas nos últimos meses, contaminados por ideias retrógadas e estarrecedoras defendidas por campos conservadores da politica brasileira. A educação não coaduna com pautas reacionárias, regressistas e autoritárias. Evidente que não há uma identidade unitária nacional docente, assim como as pessoas são diferentes nos pensamentos, ideias e ideais, os professores não devem nem podem pensar de maneira igual.

No entanto mesmo não havendo uma identidade docente, é indispensável à defesa de uma mínima unidade de pensamento que vá de encontro as ideias defendidas por campos desusados da politica tupiniquim. Em tempos de flerte com ideias cesaristas é preciso perguntar: Quem educará os educadores?

Fazer o debate, não arredar o pé da luta. Mostrar que a educação é o lugar da diversidade de pensamento e do pluralismo de ideias deve ser a batalha a ser travada pelos professores no Brasil de ontem, de hoje e de amanhã. O mestre Paulo Freire já alertava, quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor. Que nesse dia do professor e da professora seja usado para refletir e analisar qual Brasil queremos: o Brasil do tudo será resolvido na violência, nas bravatas e na intolerância, que atinge e continuará atingindo, sobretudo nossos alunos que são em sua maioria jovens, pardos e negros, moradores das periferias, ou o Brasil do respeito a pluralidade de ideias, da luta contra o preconceito e discriminação aos negros, as mulheres, aos homossexuais e outras minorias que sofrem há anos com a ausência de políticas publicas por parte do Estado que só nos últimos anos contou com tímidas ações para diminuir isso. Oxalá que este dia da Professora e do Professor seja o dia da esperança em que o amor, a solidariedade, o respeito, o livro e a educação vençam o discurso do medo, da bala e da intolerância. #MenosFrota #MaisPauloFreire.

*É professor da rede municipal de ensino de Anápolis e Colunista do Cartas Proféticas.

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