O segundo turno na França será entre a direita neoliberal e a direita xenófoba, como se fosse por aqui um Dória versus Bolsonaro!

O segundo turno na França será entre a direita neoliberal e a direita xenófoba, como se fosse por aqui um Dória versus Bolsonaro!

As forças tradicionais dos Republicanos (de centro-direita) e dos Socialistas (de centro-esquerda) ficaram de fora

A lição maior das eleições francesas é a de que o centro do espectro político ficou de fora. As tradicionais forças políticas de centro-direita e de centro-esquerda, representadas pelos Republicanos e Socialistas, perderam popularidade.

 

É preciso compreender que esta realidade não veio gratuitamente, mas pela sensação, e não só na França, de que a direita e a esquerda tradicionais, na prática, representam a mesma coisa, o mesmo projeto, ou seja, são meros replicadores dos ditames do ‘mercado’.

 

O Socialista François Hollande teve, ao longo de seu mandato, de abandonar as propostas à esquerda, como aumentar o imposto de renda dos mais ricos, para adotar o ajuste fiscal e a austeridade cobrados pela União Europeia.

 

Na política de imigração, Hollande adotou, também ao longo do mandato, um tom mais bélico e conservador. Ou seja, o socialista não fez nada diferente do que faria um Presidente do partido Republicano ou mesmo da Frente Nacional. Pior, ao titubear em suas posições, Hollande afundou o partido Socialista.

 

Esse embaralhar político confunde o eleitor e abre espaço para extremismos.

 

Se é necessário adotar os ditames do neoliberalismo, por que não um ex-banqueiro como o favorito de agora Emmanuel Macron, do recente Em Marcha?

 

Se é para endurecer na política de imigração, destilar um discurso xenófobo e antiglobalização, ninguém melhor que a ultradireitista Marine Le Pen.

 

Resultado: os socialistas foram varridos com míseros 6%, o republicano François Fillon, com 20%, ficou de fora do segundo turno e o keynesiano Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda, xingado de ‘comunista’ pela mídia conservadora francesa, foi bem, mas obteve pouco menos de 20% dos votos e também ficou de fora do segundo turno.

 

E também é preciso dizer que este embaralhar político ocorre em outros países europeus, como na Inglaterra, onde as políticas dos Conservadores se assemelham às do tradicional Partido Trabalhista, ambos pró ‘mercado’ e fãs da austeridade.

 

Nessa conjuntura, os centristas e a esquerda tradicional vão ficando sem discurso e sem voto.

 

É claro que na disputa entre o neoliberal e o fascista, o neoliberal é o menos pior. Assim será o posicionamento, a princípio, das forças derrotadas de centro-esquerda e centro-direita na França ao apoiarem Macron contra Le Pen. Mas a crise e a ausência do centro na disputa do Estado tende a gerar graves prejuízos à população.

 

Portanto, ao mesmo tempo em que o neoliberalismo vai produzindo o monopólio da informação, a concentração brutal de renda, o desemprego, a pobreza, o enfraquecimento da soberania dos Estados nacionais, as guerras e a xenofobia, ele também vai produzindo a ascensão dos extremos na política, dos outsiders que se auto definem ‘não políticos’ e o isolamento dos moderados e dos políticos ditos ‘tradicionais’.

 

A esquerda tradicional, dos socialdemocratas à extrema esquerda, perde no discurso econômico, pois o neoliberalismo tem a grande mídia a seu lado, e ainda não tem possibilidade de enfrentar a direita no discurso moral, seja no quesito corrupção, seja no quesito de segurança pública, na política de imigração, no comportamento individual ou no quesito do combate aos malefícios da globalização.

 

Trazendo esse debate para a nossa realidade brasileira e latino-americana, podemos refletir sobre alguns cenários.

 

O primeiro deles é a crise aberta nos países que, nos últimos quinze anos, tiveram a ascensão de governos à esquerda e a adoção de políticas soberanas de desenvolvimento com inclusão social, a partir do fortalecimento do Estado como indutor do desenvolvimento.

 

Essa realidade está sendo varrida América Latina afora através de um movimento conservador apoiado na hegemonia midiática empresarial ou em golpes parlamentares quando a simples propaganda midiática não é suficiente.

 

Junto com a crise dos governos populares também está sendo enfraquecida a ideia de uma união latino-americana baseada no princípio da solidariedade e da cooperação, como buscou o Mercosul até recentemente e como propugna a união sul-sul, desenvolvida pelos países em desenvolvimento do hemisfério sul a partir dos anos 1990.

 

Novamente o poder de influência das potências mundiais, notadamente os EUA, volta a ter força por aqui, impondo um modelo de união baseado exclusivamente nos interesses econômicos e comerciais, ficando o ser humano e as questões sociais de fora.

 

No cenário interno do Brasil, a crise gerada pelo golpe na democracia em 2016 deu força à ‘direitização’ do discurso e ao processo de negação da prática política. Esse movimento conservador, apoiado na grande mídia, cresceu a partir de 2013 e esteve em massa nas manifestações que apoiaram o golpe contra Dilma e a democracia.

 

Essa realidade deve ser enfrentada de frente!

 

Autocrítica, revisão de programas, reavaliação da tática e da estratégia são sempre importantes, mas esse é um movimento para um futuro próximo, quando fizermos o balanço desses dias e realinharmos as forças de esquerda, populares e seus programas.

 

O momento agora é de luta, de unidade, de fortalecer os consensos, de construir uma greve geral que derrote a agenda de retrocesso imposta por um governo ilegítimo e abra caminho para a antecipação de eleições gerais que resgate a democracia.

 

Tanto no Brasil quanto na Argentina, países com histórico de lutas populares contra governos autoritários e entreguistas, esse movimento de unidade antineoliberal é fundamental.

 

Aqui é lá, a impopularidade dos governos neoliberais é um sinal importante. O enfrentamento ao projeto antipopular e antinacional de Temer e Macri, construído nas ruas, é o início da pavimentação do caminho para o resgate do debate sobre a importância de um projeto nacional de desenvolvimento com soberania e inclusão social.

 

Vivemos a oportunidade de reconstrução e fortalecimento do campo popular de centro esquerda que possa disputar o discurso em um futuro próximo com a direita neoliberal e xenófoba, colocando as lideranças populares, não somente Lula, em condições de acessar o poder.

 

Para isso, torna-se fundamental defender o legado de conquistas dos projetos populares e nacionais-desenvolvimentistas já aplicados, não apenas o grande legado petista de crescimento com inclusão social recente, mas o legado Trabalhista do passado, que deu ao povo brasileiro a condição de cidadão passível de direitos, como os direitos trabalhistas agora ameaçados pelo golpismo.

 

Se essa construção e essa defesa não se derem agora, a partir da greve geral contra as reformas retrógradas e da unidade de amplas forças vivas da sociedade em prol da democracia, corremos o risco de ter em 2018 um segundo turno entre Dória e Bolsonaro, em um cenário bem pior que o cenário atual francês em termos econômicos e de direitos humanos.

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Ricardo Jimenez, professor e coordenador do Setorial Direitos Humanos do PT de Ribeirão Preto. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

Comentários (1)

Filipe Peres

Perfeito.