Em 1996 Ribeirão Preto parou no pãozinho francês!

foto: divulgação

Em 1996 Ribeirão Preto parou no pãozinho francês!

O ano era 1996 e a disputa eleitoral se dava entre o respeitado advogado Sérgio Roxo da Fonseca e o empresário da construção civil Luiz Roberto Jábali. Era uma disputa PT versus PSDB em meados dos anos 1990 em um importantíssimo município do nordeste paulista.

 

Era um embate entre duas forças que polarizariam duelos nacionais futuros, mas que ocorria em Ribeirão Preto em um momento nacional de apogeu do neoliberalismo e de seu discurso em defesa do desmonte do Estado e das privatizações. Era a metade de uma década que seria marcada pelo desemprego estrutural, pela recessão econômica e pela falta de perspectivas para a juventude.

 

Ribeirão Preto, naquele momento, ostentava um crescimento de receita e de investimentos privados dignos de ser chamada de "Califórnia brasileira" (agronegócio, construção civil, tecnologia hospitalar de ponta e setor de serviços), mas também enfrentava graves problemas sociais advindos do aumento populacional acelerado, o que agravava a desigualdade social e o problema de moradias, com reflexão na ascensão do número de favelas e da violência urbana, que sustentaria uma média maior que 100 homicídios por ano ao longo daquela década.

 

Essa era a cidade em disputa na eleição de 1996.

 

Mas é importante entender um pouco o como Ribeirão Preto chegou à eleição de 1996 e, para isso, vale um breve flashback.

 

No período da ditadura militar, entre os anos 1960 e 1980, a cidade foi governada por dois políticos da Arena, o partido da ditadura, que se revezaram no comando do Palácio Rio Branco: Welson Gasparini e Duarte Nogueira. Foi um período de expansão estatal, típico do nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950 e mantido pela ditadura, e da substituição do modelo ferroviário pelo modelo rodoviário. Saía a estação de trem e entrava a rodoviária. As ruas começaram a ganhar cada vez mais carros e o modelo de transporte coletivo de ônibus circulares a diesel se consolidava. Autarquias importantes foram criadas: Daerp, Ceterp e Transerp (que passou a operar a boa novidade dos trólebus a partir de 1982). E tantas outras obras e projetos financiados inclusive pela Usaid (órgão do governo americano ligado à CIA).

 

Foi ali que Ribeirão Preto iniciou o seu boom de crescimento, dominada por uma política provinciana, onde o chefe político distribuía os pedaços do poder. Ribeirão se abria ao crescimento, mantendo-se politicamente fechada, com os segmentos populares, cada vez mais latentes, à margem do debate e da participação política.

 

Durante esses 20 anos foi tomando forma a Ribeirão Preto que conhecemos hoje: a ACI, com seu histórico poder político, o setor da construção civil (das empreiteiras), com poder e influência crescentes, a cidade dividida com nítida separação social, com bairros de periferia mal servidos de transporte público e equipamentos sociais e um centro perdendo importância econômica frente a uma zona sul pujante.

 

Enquanto os governos federal e estadual promoviam, nos anos 1980, a construção de conjuntos habitacionais na zona norte e leste (Quintino, Simioni, Marincek, Castelo Branco e outros), em um modelo conhecido de casas geminadas com pequena infraestrutura e quase nenhum equipamento público, afastando seus moradores não só do centro da cidade mas também das estruturas sociais, criando bolsões de pobreza e ausência do Estado, as empreiteiras começavam a transformar a zona sul da cidade na região dos ricos, da especulação imobiliária. O poder financeiro consolidava sua cadeira cativa no gabinete mais importante do Palácio Rio Branco, o do prefeito, e a zona sul se destacava nos investimentos, a começar pelo RibeirãoShopping e pela transformação da avenida Presidente Vargas na primeira "Fiúsa" da cidade.

 

Ribeirão Preto, às portas dos anos 1990, com essa realidade mostrada, precisava urgente de um novo e moderno projeto de cidade.

 

Apesar do peemedebista João Gilberto Sampaio ter governado Ribeirão nos anos 1980 e ser o favorito para vencer as eleições de 1992, a grande novidade política da cidade no início dos anos 1990 era o jovem e promissor Antônio Palocci Filho, do PT. Um político com postura e discurso construtivo, agregador. Palocci, seja como vereador ou como deputado estadual, foi a liderança em torno da qual se articularam as novas forças sociais da cidade, que congregavam setores populares, políticos e empresariais. Da união desses vários segmentos nasceu um programa de governo, uma proposta para a cidade na eleição de 1992, sustentada na aliança entre PT e PSDB (àquela altura um partido com posturas progressistas).

 

 

Palocci venceu.

 

Foi uma boa administração. Pela primeira vez, novidades administrativas ganharam força na cidade: orçamento participativo, médico de família, políticas inovadoras para a infância e juventude (com reconhecimento e prêmio do Unicef, que escolheu Palocci o "Prefeito Criança"), criação das regiões administrativas (buscando descentralizar e aproximar a Administração das pessoas), políticas de moradia e lotes urbanizados sem o auxílio dos governos estadual ou federal. Enfim, era um novo projeto em curso que apontava para um modelo de cidade integrada, com expansão das linhas de trólebus e abertura de bairros residenciais acessíveis a uma classe média ascendente e ao estudante trabalhador, em regiões antes restritas às mansões de luxo.

 

Portanto, em 1996, a cidade tinha a chance de ter uma continuidade administrativa com um homem competente e comprometido com os avanços sociais do período 1993-1996. Com Sérgio Roxo, Ribeirão poderia aprofundar suas políticas de distribuição de renda e ter a possibilidade de um debate profundo sobre os seus rumos, discutindo o seu Plano Diretor e seu rumo tributário de maneira a planejar uma cidade mais equilibrada e justa para os próximos 15 anos. Sérgio Roxo era o oxigênio progressista, com credibilidade e sensibilidade para avançar no projeto iniciado com Palocci, inclusive para tocar com capacidade o tão sonhado e necessário projeto de revitalização do centro da cidade.

 

Mas nada disso aconteceu.

 

Jábali era um neotucano vindo do Partido Democrata Cristão. Entrou pela direita com um discurso de direita. Sua entrada rompeu a aliança criada em 1992 com Palocci e já apontava, naquele momento, o futuro que o PSDB teria após abraçar o neoliberalismo de FHC e companhia. Seu discurso de campanha aliava uma abstrata promessa de geração de empregos, via atração de empresas, com debate sobre o preço do pãozinho francês na merenda escolar. Isso mesmo, Jábali contestava Roxo sobre o preço pago pelo pãozinho francês para a merenda escolar, assim como o preço da coxa de frango e do molho de tomate! Foi um debate raso e secundário em relação ao verdadeiro debate que a cidade deveria fazer naquele momento. Era nítida a angústia de Sérgio Roxo buscando elevar o debate e discutir temas mais profundos. Mas eram os anos 1990, o discurso nacional impregnado de neoliberalismo e de propaganda da "eficiência empresarial" fez eco em Ribeirão Preto, dividiu o eleitorado e o empresário do "pãozinho francês" venceu.

 

O resultado todos sabemos: o empresário vendeu a Ceterp, entregou de graça as linhas de trólebus que Palocci havia ampliado para as empresas privadas, desestruturou o modelo de transporte coletivo da cidade, acabando com os terminais, criou uma excrescência chamada Cidade Limpa (uma frente de trabalho que usava quase de graça a mão-de-obra do povo pobre da cidade), gerou polêmica ao permitir a instalação de um "novo" Shopping em uma área protegida de cerrado, não gerou os empregos prometidos e fez uma administração tão ruim que nem mesmo foi candidato à sua própria sucessão. Jábali construiu o Parque Curupira, coisa boa, mas que podia ter sido ampliado por toda aquela área onde está a nascente do córrego dos Catetos.

 

A interrupção do projeto de 1992 foi muito ruim para Ribeirão Preto. Mesmo a eleição consagradora de Palocci em 2000 não conseguiu retomá-lo, pois houve o chamado de Lula no meio do caminho.

 

Gasparini, que reassumiu seu posto preferido em 2005 (fazendo o que sempre faz: reclamar que não tem verba para nada) e Dárcy Vera, cumprindo seu segundo mandato, não conseguiram algo que é fundamental para uma cidade: criar uma marca, um projeto de desenvolvimento humano e social. Ribeirão é hoje uma cidade sem rumo à espera do resgate de um projeto.

 

Fica o lamento. Eu tinha 20 anos em 1996 e votei em Sérgio Roxo. Diz a lenda urbana que muitos eleitores de Roxo, crentes na vitória, preferiram viajar para a praia aproveitando que o 31 de outubro daquele ano caía em uma quinta-feira e lá da praia muitos lamentavam a surpresa do resultado adverso. De qualquer forma, fomos traídos pela história, por uma ínfima e dolorosa diferença de 750 votos e pelo bendito "pãozinho francês"!

 

Eu gostaria de ter vivido a Administração Sérgio Roxo.

 

A Administração Sérgio Roxo foi a melhor administração que nunca aconteceu em Ribeirão Preto. 

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Ricardo Jimenez é químico, professor e criador do blog O Calçadão Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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