Deixe o ogro em casa

foto: Brasil 247

Deixe o ogro em casa

Estive na delegacia de Perdizes, em São Paulo, com os sociólogos Walquíria e Rubem Murilo Leão Rêgo, ambos professores da Unicamp, e sua filha Daniela.

 

Dias atrás, Daniela quase foi atropelada na garagem por um vizinho que ameaçou jogar o carro contra ela. A família conta que esse mesmo vizinho vem os agredindo com xingamentos, gestos obscenos e ameaças desde que viu um adesivo em apoio a Dilma Rousseff no carro do casal, ainda no ano passado.

 

Ou seja: eles têm sido vítimas de agressão por votarem no PT. Numa atitude exemplar, resolveram denunciar o agressor. Registraram um boletim de ocorrência e agora oficializaram uma representação para que o vizinho seja intimado criminalmente.

 

Houve no episódio não apenas crime de ódio e intolerância, mas ameaça à integridade física de Daniela, tipificada inclusive como dolo eventual, uma vez que o vizinho assumiu o risco de ferir e até matar a jovem ao avançar contra ela com o automóvel. Em momento adequado, a família poderá pedir reparação.

 

Este caso, infelizmente, não é pontual. Não me refiro à bomba que lançaram contra o Instituto Lula ou aos diretórios do PT que foram apedrejados em diferentes cidades desde o início do ano. Sei de gente que vem sendo hostilizada e até agredida fisicamente em lugares que frequentaram na época da campanha com uma camiseta da Dilma ou uma estrelinha do PT.

 

Num momento como este, de polarização e ânimos exaltados, sem que pese qualquer prova contra a presidenta Dilma, é preciso ter muito cuidado para não alimentar ondas de ódio e intolerância. A responsabilidade é de cada indivíduo, nas redes e nas ruas.

 

O delegado que nos atendeu, Lupércio Dimov, lembrou que parte da mídia vem contribuindo nesse sentido, dando espaço privilegiado aos que pregam discursos extremistas de achincalhe ao PT e ao governo. Ele fez uma analogia com o futebol ao contar que, em Perdizes, um jogador do Corinthians foi agredido e expulso de um restaurante, com a conivência do proprietário, porque, segundo eles, ali “corintiano não entra”.

 

Em seguida, um escrivão foi colher o depoimento da família e chamou o pai e a filha para narrar o episódio, dizendo que a mãe e as outras duas pessoas que nos acompanhavam esperassem do lado de fora porque ouviria apenas “as vítimas”.

 

Ele agiu profissionalmente, eu sei, mas naquela hora não pude deixar de pensar que, numa ocorrência como esta, a vítima é toda a sociedade. Quando somos constrangidos em nossas atitudes, impedidos de sair de casa ou de exercer nosso direito à livre manifestação, então temos um problema gravíssimo a enfrentar.

 

Por isso sugiro estender ao âmbito da política a campanha “Deixe o ogro em casa”, que uma seguradora de veículos lançou numa referência à violência no trânsito. Tanto lá quanto aqui, todos nós ganhamos.

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Paulo Teixeira é deputado federal (PT-SP) e vice-líder do governo na Câmara dos Deputados. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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