Márcio Coelho: Todas, Todos e Todxs, pode isso?

Arte: Ana Favaretto

Márcio Coelho: Todas, Todos e Todxs, pode isso?

Tenho criticado o uso de “todos e todas”, “companheiros e companheiras”, dentre outras formas, usadas frequentemente, para saudar a totalidade das pessoas em plenárias e outros eventos. Todavia, sempre falta tempo para debatermos este assunto. Então, chegou a hora de conversar sobre isso.

 

Primeiramente, quero deixar claro que tenho plena consciência de que tais desvios gramaticais ocorrem no afã de marcar o respeito à participação feminina ou de demonstrar reverência às mulheres.

 

Todavia, devo esclarecer que sexo é uma questão biológica e, nesse caso, gênero é uma classificação gramatical. Segundo o professor José Maria da Costa,

“(...) determinados idiomas, além do masculino e do feminino, também têm o gênero neutro, algo inaceitável quando se fala de sexo. Em tais línguas, animais, que sabidamente têm sexo, muitas vezes, pertencem ao gênero neutro. Por outro lado, seres assexuados – como o garfo e a colher – não deixam de ter seu gênero. Alguém, por acaso, iria procurar uma razão por que garfo é masculino em português, e por que colher pertence ao feminino?

Outro exemplo, extraído da língua espanhola é o que ocorre com a palavra água, que é feminina, mas tem o seu artigo alterado para que, ao ligá-lo ao substantivo, não emitamos uma frase cacofônica, isto é, com um som ruim. Vejamos, na prática, como isso ocorre: Se água, em espanhol, é um substantivo feminino, deveria entrar em acordo com o artigo feminino “la”, isto é, “la agua”. Ocorre que a junção entre os dois “as”, o do artigo – la - e o que inicia o substantivo – agua -, cria, para os hispanofalantes, uma sonoridade ruim, uma cacofonia, a partir do alongamento da vogal “a” que deve ser repetida. Para corrigir isso, o falante do espanhol simplesmente troca o artigo feminino (la agua) pelo masculino (el agua). Desse modo, o leitor acha que devido a essa troca a palavra mudou de gênero? Claro que não, o que ocorre é apenas um ajuste na sonoridade. Nós, lusofalantes, não temos problemas com isso, pronunciamos “a água”, e isso não nos causa desconforto algum.

 

Vejamos, também, que muitas palavras, em língua portuguesa, existem na forma masculina e feminina, como é o caso de machado/machada, calda/caldo, galho/galha, chinelo/chinela etc. Ninguém é capaz de explicar o porquê de a palavra mar ser masculina, em português, e feminina, em francês, dado que essas duas línguas, assim como o espanhol e o italiano, são descendentes do mesmo tronco, a saber, o tronco românico.

 

Vocativo é o termo que utilizamos para marcar com quem se fala. Podemos utilizar como vocativo palavras e/ou expressões, como meu amor, linda, nome próprio, pronomes de tratamento etc.

 

Todos um termo globalizante, inclusivo. Quando se diz “bom dia a todos”, a audiência feminina já está incluída. Portanto, se dissermos “bom dia, a todos e todas”, isso equivale a dizer “bom dia a todos e todas e a todas”, pois, no pronome indefinido “todos”, a audiência feminina já está incluída.

 

Ao contrário, “todas” é um pronome indefinido excludente, isto é, que suprime a audiência masculina. Se eu digo “bom dia a todas”, a audiência masculina não está incluída.

 

Todavia, o que mais incomoda é que todos e todas não são pronomes de tratamento, isto é, não são termos que definem com quem estamos falando, como senhoras e senhores, companheiros e companheiras, vocês, dentre muitos outros. Não podemos falar “olá, todos” ou “olá, toda”, assim como podemos dizer “olá, companheiro”, “olá senhor”, por exemplo.

 

Para concluir – o artigo, não o assunto -, quero dizer que a colocação do “x” para indicar os dois gêneros linguísticos (todxs, amigxs etc.) é abominável, pois a grafia existe para registrar o som da fala, e essas palavras são impronunciáveis. Isso se deve ao fato de tal neologismo não ter sido testado como fala, antes de ser utilizado nas redes sociais, na forma escrita. Uma consoante jamais pode substituir uma vogal, pois ambas têm diferentes funções na cadeia sonora da fala. Se alguém que utilize a grafia “todxs” experimentar ler em voz alta essa novidade fadada ao fracasso, verá que não há mecanismos fonéticos, em língua portuguesa, para que ela seja pronunciada.

 

De todo modo, considero justa e pertinente a valorização da mulher, mas, considero que tal acinte à língua portuguesa não faz mais do que escamotear o quanto nossa sociedade machista ainda reserva desprestígio à população feminina.

 

Estou ao lado da luta de todas as mulheres, mas, dou prioridade a uma senhora anciã, que permite nosso imperfeito – como diria S. Tomás de Aquino -, mas principal modo de comunicação: a Língua Portuguesa! É isso.

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Márcio Coelho é Secretário de Cultura do PT de Ribeirão Preto Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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