Márcio Coelho: O terrorismo entrou pela porta da frente

foto: Arquivo Rede PT

Márcio Coelho: O terrorismo entrou pela porta da frente

O Secretário de Cultura do Partido dos Trabalhadores de Ribeirão Preto, Márcio Coelho, expressa sua indignação e protesta contra o ataque terrorista que sofreu a produtora do Porta dos Fundos

Durante nossa existência, na qualidade de sujeitos sociais, mantemos relações com vários tipos de objetos: materiais, afetivos, artísticos, simbólicos, políticos, amorosos, profissionais etc. O sujeito que não se relaciona com um objeto sujeita-se a ser o objeto da ação de outros sujeitos, em uma palavra, sujeitos e objetos são a garantia mútua de sua existência, um não sobrevive sem a existência do outro.

 

Nossa vida afetivo-passional funciona sob a administração de adiantamentos e atrasos, isto é, de tolerar o inesperado e programar a espera.

 

Paul Valèry fez a seguinte formulação enigmática:

- Noção dos atrasos.

- O que (já) é não é (ainda) – eis a surpresa

- O que não é (ainda) (já) é – eis a espera

 

Nós quase sempre programamos nossos encontros com nossos objetos, que guardam nossos desejos e valores sociais. Quando já temos certeza de que alcançaremos o objeto, tudo funciona como se ele já fosse (nosso), mesmo sem ser ainda (nosso): eis a espera. Tudo ocorre de maneira bem diferente, quando cremos que ainda levaremos algum tempo para alcançarmos o encontro com o objeto – ou mesmo que jamais o encontraremos – e, repentinamente, ele se aproxima velozmente: eis a surpresa. A surpresa e a espera são moduladas pela velocidade.

 

A surpresa presentifica o futuro e causa confusão, por subverter o tempo de espera programado pelo sujeito. Não é sem motivo que tentamos refazer o caminho todas as vezes que uma surpresa nos sobrevém.

 

Se o leitor já teve uma festa surpresa, certamente se recordará do momento em que buscou reconstruir o tempo cronológico ido, para tentar entender como conseguiram ludibriá-lo para fazer a surpresa. A surpresa é estonteante! Desequilibra sujeitos sociais individuais, mas também é capaz de desequilibrar a sociedade.

 

A surpresa é elemento essencial para a eficácia de um ataque terrorista. Por não termos programado, como sujeitos sociais, nos “encontrar” com bombas que mutilam nossos corpos, destroem prédios e não raramente nos matam, quando um ataque implode o fluxo do cotidiano social, quedamo-nos atônitos e, logo em seguida, tentamos refazer o caminho para compreender o que nos levou a não acreditar que tal procedimento execrável pudesse ter lugar no Brasil.

 

O ataque terrorista é covarde por vários motivos, mas, principalmente, porque, em geral, seu alvo principal não é o atingido. No caso do ataque à produtora do programa humorístico Porta dos Fundos, o objetivo principal é muito menos o prédio da produtora do que a liberdade de expressão e o sopro de democracia com o qual a diversidade de crenças religiosas nos refresca a alma.

 

Um grupo que tenta reanimar o tacanho e retrógrado integralismo assumiu a autoria do atentado, fato que reafirma a tese exposta no parágrafo anterior, pois tal corrente rege sua atuação por “princípios éticos, morais e religiosos”. Desnecessário dizer que sua ética é a da construção de regras de convivência que não dão espaço à plena liberdade de viver como se quer viver, isto é, de existir em plenitude; sua moral é a moral que se compatibiliza com o modo de viver em sociedade de um restrito grupo homofóbico, misógino, racista e preconceituoso em último grau; que seus princípios religiosos são fundamentalistas, baseados na interpretação desqualificada de um livro que narra a trajetória de Jesus.

 

Assistimos, espantados, ao silêncio das autoridades, da mídia hegemônica, da classe média e da elite, em relação ao atentado, no entanto, o que mais causa indignação é o juiz justiceiro não tomar atitude alguma em relação ao caso.

 

Como o ataque se deu contra um grupo de humoristas supostamente progressistas, o aparato judiciário burguês e governamental optou por normalizar o fato. Desse modo, surpreendentemente, o terrorismo entra pela porta da frente, num momento em que o Brasil já sofre tanto atentados aos direitos sociais e à democracia.

 

Espreitemos, cuidadosamente, os movimentos dessa gente, para que não sejamos novamente surpreendidos. A única defesa contra a surpresa é a informação prévia precisa.

 

No mais, oferecemos nosso irrestrito apoio a toda a equipe do Porta dos Fundos.

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