A Cultura como Destinadora da Sociedade

Ilustração: Ana Favaretto

A Cultura como Destinadora da Sociedade

"...proponho que criemos vários pequenos pontos culturais de partida, afinal, um evento cultural, sabemos, é um ótimo aglutinador de pessoas e um potente catalisador para o processo de transformação social..."

De acordo com estudos da construção do sentido, a relação entre sujeito e objeto se configura uma ação, e a relação entre sujeito e outro sujeito, uma comunicação.

 

Pode parecer estranho, mas é certo que só nos comunicamos com alguém para fazer esse alguém fazer alguma coisa para nós. No mínimo, para fazê-lo crer que aquilo que estamos falando é verdade.

 

Também é verdade que um sujeito não é capaz de fazer nada sem que tenha competência para tal. Quem doa essa competência é o destinador, ou seja, um sujeito com o qual o sujeito do fazer compartilha valores.

 

O que seria essa competência? São modalidades, isto é, elementos que modificam o sujeito. Que o fazem querer, dever, poder e saber fazer.

 

Notaram que os verbos listados na linha acima não configuram uma ação propriamente dita? Isso porque são elementos que preparam o sujeito para a ação, para o fazer. Afinal, ninguém faz aquilo que não quer, não deve, não pode e não sabe. Como já dito, quem doa essa competência é o destinador, que pode ser um sujeito concreto ou abstrato, como o amor, por exemplo.

 

Um exemplo clássico é o do das fábulas: Uma princesa foi sequestrada por um dragão. Então, o rei anuncia que dará uma barrica de moedas de ouro e a mão da princesa em casamento para quem resgatar a princesa.

 

Ao fazer esse anúncio, ele doa a competência do /querer/ a um jovem, que por ser bom cavaleiro, forte, de porte atlético, /pode/ e /sabe/ como resgatar a princesa.

 

Notem que ele já estava dotado de duas competências (saber e poder), mas só passou a ter vontade (querer) depois que o rei, por meio de uma manipulação – ou persuasão – por tentação, ofereceu-lhe a mão da princesa. Então, de posse de três competências (querer, saber e poder) o sujeito parte para a ação. Quem o fez fazer? O rei. O destinador.

 

Cultura

Não é novidade para ninguém que produção cultural foi fator extremamente importante para a resistência ao golpe militar de 1964, haja vista os CPCs da UNE e as canções de protesto. Em especial, no âmbito emblemático da canção, a resistência atravessou gerações, basta que pensemos que Geraldo Vandré e Chico Buarque - ícones da canção de protesto – surgiram para o grande público no início dos anos de 1960 e, Gonzaguinha, no final dos anos 70 e início dos 80.

 

Penso que, diante do estado de retrocesso desenfreado, devemos, na qualidade de artistas, (re) assumir o papel de destinador, pelo menos para quem acredita no poder transformador e de resistência da arte e da cultura, e doar competências virtualizadoras do sujeito, isto é, inseminar /querer/ e /dever/ na população, que, de alguma forma, /sabe/ e /pode/ confrontar um estado que se põe de maneira diametralmente oposta à cultura, ao saber, à educação, à pesquisa, enfim, a tudo que que desenvolva a consciência e a solidariedade – aqui, entendida como interdependência social - do ser humano. Desse modo, acredito que possamos inseminar, ao menos, um princípio de ordem transformadora em meio ao caos social e de estado. José Miguel Wisnik já afirmara, no livro “O Som e O Sentido”, que um som afinado já insemina um princípio de ordem no universo.

 

Canção

Uma canção popular tem relações de compatibilidade intensas (locais), que também se compatibilizam com sua forma extensa (global), explico: as melodias de muitas canções são compostas por pequenos temas melódicos, que são repetidos muitas vezes. Entretanto, para criar sintaxe e não permitir que o ouvinte perca a atenção, esses temas se desdobram, como que a desenrolar a melodia, e logo voltam a soar. Esse recurso local, pontual, entra em compatibilidade, no âmbito geral, com a totalidade da canção, por meio da relação entre refrão e a chamada segunda-parte, que funcionam dentro da mesma lógica. Grosso modo, a segunda-parte só existe para tenhamos vontade de voltar ao refrão. Eis a sintaxe no âmbito da totalidade cancional. 

 

Acredito, do mesmo modo, que, se houver compatibilidade relacional entre o Individual e o coletivo, a sociedade poderá viver em harmonia, como uma canção. Se o individual (intenso/local) vibrar de maneira que sua frequência se compatibilize com o movimento vibratório do social (extenso/global), teremos uma sociedade em harmonia.

 

Percurso

Sabemos, a partir dos estudos de Louis Hjelmslev, que o percurso que leva uma invenção linguística eventual à condição de elemento do sistema linguístico é o seguinte: fala-uso-sistema. De modo impreciso, tudo se dá como se um falante criasse um termo ou uma expressão linguística (idioleto), que, depois de algum tempo, é assimilada por uma comunidade (dialeto). Então, seu uso, um dia, virá a ser normatizado (sistema).

 

Notem que esse percurso é muito parecido com o percurso de uma ideia ou comportamento sociológico. No âmbito individual (idioletal, portanto) alguém pode investir no fazer artístico-cultural. O resultado desse investimento pode persuadir uma comunidade (âmbito dialetal), que, por sua vez, a partir do seu uso constante pode alçar tal comportamento social à condição de regra de comportamento (sistema).

 

Estou certo de que esse pensamento abstrato e complexo não se acomoda com facilidade no exíguo espaço de um artigo, pois muitos dos conceitos apresentados careceriam de muito mais explicação. Mas, da mesma maneira, creio que, mesmo que sem compreender profundamente a teoria que serve de base à presente reflexão, o leitor achará os caminhos para seu entendimento, afinal, sabemos que o tal sujeito da enunciação é composto pelo enunciador e pelo enunciatário.

 

Conclusão

Para que células sociais se unam para atacar, destruir ou bloquear o crescimento de organismos sociais nocivos à convivência harmoniosa é preciso que se crie um ambiente “culturoterápico”, que propicie um ponto de partida, afinal, nenhum grupamento social parte para uma caminhada coletiva sem um ponto comum original. Para tanto, proponho que criemos vários pequenos pontos culturais de partida, afinal, um evento cultural, sabemos, é um ótimo aglutinador de pessoas e um potente catalisador para o processo de transformação social. áHáHá

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Márcio Coelho é Secretário de Cultura do PT de Ribeirão Preto Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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