Galeno Amorim: Pacto e concertação nacional

foto: Brasil247

Galeno Amorim: Pacto e concertação nacional

O atual momento em que vive o país merece atenção e cuidados redobrados. E não só nos campos da economia e da política, onde uma crise está permanentemente, nos últimos tempos, a retroalimentar e a potencializar a outra. Fora os estragos perceptíveis que a instabilidade e a tensão desmedida na vida nacional já causam nos mais diferentes aspectos, com reflexos e prejuízos de toda ordem e por toda parte, o Brasil também corre o risco de perder ainda um de seus mais ricos patrimônios, e tão mais valioso e imprescindível nos tempos atuais – e, justamente, em um campo onde, historicamente, tem servido de referência e padrão mundial: o campo da tolerância.

 

Os brasileiros, de forma geral, sempre conhecidos por seu calor humano e cordialidade. Em que pese certos abusos, preconceitos inequívocos e os resquícios de um racismo enraizado e jamais admitido, o Brasil, há que se reconhecer, sempre foi palco de convivência pacífica e fraterna entre os diferentes. Árabes e judeus aqui são vizinhos amistosos. Por essas bandas, as birras sempre se deram muito mais por rivalidades esportivas do que propriamente por inimizades históricas e insuperáveis. Mas ódio?? Isso, não!

 

Pelo menos até muito recentemente – para ser preciso, até o último embate eleitoral, em 2014, que, por sinal, parece não terminar nunca – sempre foi assim. De uma hora para outra, entretanto, pessoas que pareciam normais e até educadas saíram dos armários da intolerância, do ódio e da xenofobia para, estimuladas por certas lideranças e também por pessoas comuns como elas, andar por aí, seja no mundo físico ou virtual, a distribuir impropérios e a agredir, desrespeitar, menosprezar e, pior, humilhar semelhantes que insistam em pensar diferente e adotar outros pontos de vista no necessário diálogo nacional. É certo que a palavra “diálogo” é mais apropriada para ser usada em situações em que alguém se dispõe escutar o outro e seus argumentos, além de expressar os seus próprios.

 

Mas ainda há tempo de reverter essa situação. Ainda é possível, por exemplo, buscar na memória e se recordar daqueles tempos em que discutíamos por pontos de vista, fosse no futebol, na política ou em qualquer outro tema, para, em seguida, tocar a vida como ela é e deve ser. A partir de uma visão humanista e respeitosa de uns para com os outros. Buscando enxergar os aspectos positivos no outro – quem não os têm?! – e, principalmente, construindo as pontes e a unidade possíveis entre aquilo que há em comum entre nós. E, quem sabe, possamos, então, olhar de soslaio para esse tempo trevoso de hoje e até sorrir amarelo, ciente dos tropeções que demos, por algum tempo, em nossa vida pregressa.

 

Faz todo sentido, portanto, a defesa feita, recentemente, pelo líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE), sobre a necessidade imperiosa de se fazer todo esforço necessário, por parte de todas as lideranças, visando uma grande e inadiável concertação nacional. Que seja capaz de frear a crise e tirar o país do imobilismo atual, mas, principalmente, que também seja capaz de estancar essa onda de insensatez e a sangria de valores humanistas que campeia abertamente por aí e faz a Nação sofrer.

 

O cenário, já ponderava o senador, não pode abrigar atitudes inconsequentes e tampouco ser usado como justificativa para saídas sem amparo constitucional. É fundamental que os que agem, normalmente, com responsabilidade e altivez subam nesse palco para externar sua inquietude com expedientes menos nobres que possam incendiar o país e agudizar a crise.

 

A Nação e cada um de nós temos muito a perder com atitudes inconsequentes e irresponsáveis. O que se destrói, com certa facilidade, em dias ou meses, como é o caso da democracia e da legalidade, pode levar décadas para ser reconstituída – e o tempo que se perde é, em todos os sentidos, irrecuperável e está aí a história para nos lembrar, a cada instante, disso. Governo e oposição devem reconhecer os erros de parte a parte e estender as mãos a um diálogo nacional que seja verdadeiramente efetivo e livre o país do caos.

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Galeno Amorim é jornalista e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional e o Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc-Unesco). Atualmente, dirige o Observatório do Livro e da Leitura Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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