Galeno Amorim: Mais sonhos e menos sangue nos olhos

foto: Agência Folha

Galeno Amorim: Mais sonhos e menos sangue nos olhos

Não é porque a cidade vive, hoje, momentos ruins – caracterizados pelo desalento quanto à política e à economia, e uma ausência, quase absoluta, de lideranças que possam vir a ser verdadeiros estadistas –, que não devemos sonhar. Muito pelo contrário! É justamente nessas horas, quando muitos perdem a esperança e se deixam arrastar para o imobilismo, que devemos esticar ao máximo nossa capacidade inesgotável de sonhar e, sobretudo, de tirar ‘o leite da pedra’ e, assim, construir as bases para o futuro.

Em tempos bicudos como este, surgem lideranças e, muito além dessas, os estadistas, que são capazes de enxergar o amanhã, dar um rumo novo e diferente aos acontecimentos e, principalmente, criar as condições necessárias para cruzarmos os caminhos pedregosos em tempos difíceis e de desesperança. Nada, no entanto, messiânico – aliás, exatamente o inverso disso.

A história está repleta de homens e mulheres assim, ao longo dos tempos. Mandela, na África do Sul, seguramente foi um deles. Getúlio Vargas, JK e Lula, cada qual ao seu estilo, também o foram, no Brasil.

Em Ribeirão, contudo, tivemos muito mais lideranças ao velho e (nada) bom estilo do coronelismo e/ou do populismo que, no entanto, jamais chegaram à condição de estadista. Antônio Palocci foi quem mais chegou – e talvez tenha sido o único – perto disso. E tão perto que precisou se deixar alçar para o cenário nacional, a fim de cumprir por lá o que muitos, egoisticamente, queriam que ele fizesse só por aqui (como ministro, arrumaria a economia, criaria as condições necessárias para que Lula fizesse, em seguida, amplas políticas sociais e até mesmo zeraria a – aparentemente impagável – dívida externa).

Ao completar 160 anos, Ribeirão Preto se vê diante de variados desafios, alguns complexos e outros nem tanto. É uma pena, portanto, assistir, nos dias atuais, as nossas autoridades – não exatamente com um perfil, digamos, estadista – conseguirem, no máximo, debater o que fazer diante de tantos buracos e outros males que afetam o cotidiano da população. Convenhamos que isso é muito pouco, embora não seja nada banal, para quem é obrigado a conviver, diariamente, com o resultado da má gestão pública – como motoristas, ciclistas e pedestres. Da mesma forma, é muito triste que lideranças, igualmente investidas em cargos de autoridade, não consigam se envolver com algo que vá um pouco além do preço do combustível na bomba de gasolina.

Essa visão precária e insuficiente pode, muito mais do que levar uma cidade pujante para o buraco, cavar outro tipo de buraco – e, este sim, mais preocupante e apavorante: os causados na alma da cidade. Quando esta é levada a se sentir incapaz de encarar as dificuldades do presente, passa a acreditar que não há mais saída e, sobretudo, não consegue enxergar e fazer seu próprio futuro.

Cabe, neste momento, às lideranças atuais e às emergentes abrir mão de todo e qualquer tipo de pequenez a fim de construir, rapidamente, um amplo diálogo com todos os setores da sociedade, repactuar rumos e sonhos coletivos e, então, criar as condições para construirmos, juntos, a cidade que queremos e precisamos.

Certamente, ajudará muito, nesse sentido, se as lideranças locais se abrirem e, em um gesto de grandeza e desprendimentos, buscarem a imediata superação do atual momento de intolerância política e social. Um bom passo seria convocar, urgentemente, as partes interessadas em, muito além das agressões verbais e ‘denuncismos eleitoreiros’, ter um bom choque de ideias e apresentar as respectivas visões sobre como encaminhar e resolver os problemas da cidade – como o endividamento, a falta de rumo do desenvolvimento socioeconômico e o desrespeito ao direito à cidade para fatias da população.

Há, seguramente, muito mais coisas que nos unem do que aquelas que divergimos. Um bom teste pode ser a disputa eleitoral de outubro. Quem sabe não conseguimos trilhar, com menos sangue nos olhos e mais espaço para as ideias, um caminho para o conhecimento, a disposição para o diálogo e a construção coletiva.

Feliz aniversário, Ribeirão!

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Galeno Amorim é jornalista e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional e o Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc-Unesco). Atualmente, dirige o Observatório do Livro e da Leitura Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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