Galeno Amorim: Calma lá, gente!

foto: Revide

Galeno Amorim: Calma lá, gente!

A raiva, a intolerância e a impaciência de parte da sociedade estão a jogar por terra valores e sonhos da nossa jovem e frágil democracia, conquistada a duras penas. O mito da cordialidade e do respeito à diversidade é só um deles. A instrumentação de instituições importantes da estrutura do Estado, como o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal, para atingir fins nada nobres por certos grupos ideológicos é um perigoso exemplo de até onde setores ensandecidos da sociedade podem ir. Já não se importa nem mesmo em sacrificar a Constituição, nossa lei maior.

 

A origem dessa raiva pode ser explicada: não se suporta que parcelas mais pobres da população tenham se tornado prioridade desde que um vindo do lado de lá – e, ainda por cima, operário, de barba e de mãe analfabeta – ascendeu ao comando da República. Na primeira oportunidade, mesmo com a mão forçada, toma-lhe bordoada até aprender qual é o seu lugar nessa sociedade...

 

A intolerância é mais antiga, e bem disfarçada, por séculos a fio. Bebem na mesma fonte aqueles que não suportam seres humanos de raça ou cor de pele diferente da sua como aqueles que praticam barbaridades contra os que vivem ou vêm de regiões que não as suas – vide o que falam e fazem contra nordestinos. Como também bebem da mesma água os que não admitem opção de gênero, religião, visões de mundo e comportamentos que não os seus.

 

Já a impaciência vem de uma equivocada sensação de onipotência. No caso brasileiro, pensam esses, tudo bem que adversários políticos – ou inimigos, como preferem – ganhem uma ou outra eleição, até para experimentar o gostinho, por pouco tempo, do poder político e, quem sabe, se lambuzar. Mas daí a querer ter um projeto político próprio, mais largo, para combater desigualdades e empoderar quem pode menos já é demais, esses raciocinam.

 

Assim sendo, não admitem a ideia de ter que disputar mais uma eleição presidencial – com o risco de perder novamente – para que, só em caso de vitória, recolocar o país no rumo que consideram certo – para eles e seus interesses seletivos, ao menos, não deixa de ser.

 

Para radicalizar esse cenário, uma fatia despolitizada da sociedade – que bebe na fonte dos grandes meios de comunicação, esses mesmos que perfilam, de forma combinada e acintosa à democracia, ao lado do Judiciário, do Ministério Público e dos agrupamentos de direita – crê, piamente, estar ungida da verdade e, portanto, fora do que foi levada a acreditar pelo bombardeio midiático, não há mesmo salvação. É assim que caem democracias que se imaginavam sedimentadas e nascem regimes totalitários e contrários aos interesses populares.

 

Neste triste março – que lembra um outro, de mais de meio século atrás, convencidos de sua ira santa e, sob aplausos e a complacência de quem acha mesmo que a corrupção e a crise econômica foram inventadas por Lula, Dilma e os governos de esquerda, fanáticos se animaram a atacar, com morteiros e rojões, sedes do PT em Ribeirão Preto e em outras cidades e também do PCdoB. Por ora, ninguém saiu ferido e os estragos têm sido materiais e morais. Mas a porteira do atoleiro foi aberta. Não foi exatamente assim que começaram o nazismo e o fascismo?!

 

Se um juiz federal se dispõe a grampear um telefonema da presidenta da República e – pior! – o divulga, por pura vingança, o que esperar da turba enlouquecida por campanhas sistemáticas?

 

Mas não desistamos!

 

Os democratas deste país devem continuar acreditando na resistência, na superação das dificuldades e nas saídas democráticas, e ajudar a construí-las. Seja defendendo investigações sérias e punições a quem errou – só que sem forjar provas ou selecionar alvos, a fim de poupar os amigos – e, sobretudo, exigindo respeito à legalidade e à Constituição.

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Galeno Amorim é jornalista e editor do Blog do Galeno Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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