A Constituição dos Estados Independentes na América Latina não significou uma superação da situação de colonialidade

A Constituição dos Estados Independentes na América Latina não significou uma superação da situação de colonialidade

As estruturas de poder e colonialidade lançadas sobre os povos da América Latina ao longo dos Séculos XVI/XIX deixaram amarras difíceis de serem quebradas e rompidas, fruto do aculturamento imposto pelo colonizador europeu, marcas estas que se mostram arraigadas na elite brasileira, expressando-se pela mídia.

 

Aníbal Quijano, no artigo “Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina”, nos diz que: “Aqui se configuraram e se estabeleceram a colonialidade e a globalidade como fundamentos e modos constitutivos do novo padrão de poder. Daqui partiu o processo histórico que definiu a dependência histórico-estrutural da América Latina e deu lugar, no mesmo movimento, à constituição da Europa Ocidental como centro mundial de controle desse poder. E, nesse mesmo movimento, definiu também os novos elementos materiais e subjetivos que fundaram o modo de existência social que recebeu o nome de modernidade. Em outros termos, a América Latina foi tanto o espaço original como o tempo inaugural do período histórico e do mundo que ainda habitamos. Nesse sentido específico, foi a primeira entidade/identidade histórica do atual sistema-mundo colonial/moderno e de todo o período da modernidade.”

 

A constituição dos Estados Independentes na América Latina não significou uma superação da situação de colonialidade porque estes continuaram a ter como referência os paradigmas do eurocentrismo como modo de produção e de controle da subjetividade e, em especial, do conhecimento imposto pelos Europeus desde o início da colonização, não se rompendo também com a dependência histórico-estrutural e com o centro do controle dentro do novo poder, que continuou a sofrer grande influência e controle dos Europeus.

 

A produção histórica da América Latina começa com a destruição de todo um mundo histórico promovido pelos Imperitos Espanhol e Português no Século XV até o XIX e, sem dúvida, a maior destruição sociocultural e demográfica da história que chegou ao nosso conhecimento. “Primeiro, levou-se a cabo a desintegração dos padrões de poder e de civilização de algumas das mais avançadas experiências históricas da espécie. Segundo, do extermínio físico, em pouco mais de três décadas, as primeiras do século XVI, de mais da metade da população dessas sociedades, cujo total imediatamente antes de sua destruição é estimado em mais de cem milhões de pessoas. Terceiro, da eliminação deliberada de muitos dos mais importantes produtores, não só portadores, daquelas experiências, seus dirigentes, seus intelectuais, seus engenheiros, seus cientistas, seus artistas. Quarto, da continuada repressão material e subjetiva dos sobreviventes, durante os séculos seguintes, até submetê-los à condição de camponeses iletrados, explorados e culturalmente colonizados e dependentes, isto é, até o desaparecimento de todo padrão livre e autônomo de objetivação de ideias, de imagens, de símbolos. Em outros termos, de símbolos, de alfabeto, de escritura, de artes visuais, sonoras e audiovisuais” (ob. cit).

 

Mesmo depois da independência os países Latino-americanos mantiveram a mesma estrutura de poder que impôs à maioria dos seus cidadãos um regime econômico de parca distribuição de renda, colocando-se no cenário político internacional de forma subserviente aos interesses europeus ocidentais, tendo continuado a remeter aos países centrais da Europa Ocidental toda uma gama de riquezas minerais, além de matérias-primas de toda ordem, e importando os produtos industrializados e manufaturados.

 

A colonialidade do poder dos países independentes da América Latina manteve a invisibilidade sociológica dos não europeus, "índios", "negros" e seus "mestiços", que são a maioria da população, isso com relação à produção de subjetividade, de memória histórica, de imaginário, de conhecimento "racional", de identidade. Assim se manteve a mesma estrutura de poder.

 

Para libertarmos os países da América, dentre eles o Brasil, e criar uma identidade na América Latina, temos que ter um projeto histórico aberto e com uma estrutura diferente de poder que se afaste do eurocentrismo e se volte aos projetos Latinos. “Nessa perspectiva e nesse sentido, a produção da identidade latino-americana implica, desde o início, uma trajetória de inevitável destruição da colonialidade do poder, uma maneira muito específica de descolonização e de liberação: a des/colonialidade do poder” (ob/ cit.).

 

Na última década muito se tem feito no sentido de romper com a colonialidade do poder em vários países latinos, como na Venezuela, na Bolívia, no Peru, no Equador, no Brasil, na Argentina, no Uruguai, dentre outros, que romperam com projetos neoliberais, adotando políticas de resgate social de milhares de cidadãos que viviam à margem da sociedade, com estabelecimento de políticas compensatórias, políticas de cotas de inclusão no processo de formação e produção do conhecimento, e, finalmente, implementando políticas de integração latino-americana através do Mercosul, Unasul, e com a criação da Unila, pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como instrumento de integração voltado à produção de conhecimento comum aos países da América Latina.

No dia 12 de janeiro de 2010 estava sendo criada a primeira universidade federal com vocação para as questões da América Latina e do Caribe, com a missão de promover a integração do continente por meio do conhecimento.

 

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Dr. Luís Fernando da Silva é graduado em Ciências Jurídicas pela Unesp “campus” de Franca/SP, pós-graduado em Direito Eleitoral pela Unisul/LFG, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo e aluno especial no mestrado de Ciências Sociais da Unesp “campus” de Araraquara Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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