Venezuela assediada

foto: Arquivo Rede PT

Venezuela assediada

Donald Trump decidiu, do nada, na terça-feira 5 de agosto, assinar uma ordem executiva impondo um bloqueio total contra a Venezuela. Dias antes ele já tinha levantado a possibilidade de aplicar uma quarentena e um bloqueio naval. A situação é muito delicada.

 

Esse ato de hostilidade que pode surpreender mesmo vindo desse tosco e agressivo personagem extremista, merece, no entanto, uma brevíssima contextualização, pois segue uma velha linha de agressividade dos EUA contra mundo. Numa entrevista dada em fevereiro de 2015, o presidente Obama, o bom mocinho afrodescendente que cativou o mundo com seu “Yes We Can”, declarou sem nenhum constrangimento que “... em ocasiões temos que torcer o braço dos países se não querem fazer o que queremos através de métodos econômicos, diplomáticos e, às vezes, militares”.  

 

Isso quer dizer que Trump, rodeado de seu grupo de ultradireitistas e fascistas, com amigos e admiradores como Jair Bolsonaro, está na verdade dando continuidade a uma ordem executiva assinada por Obama no dia 9 de março de 2015, poucos dias depois dessa entrevista acima mencionada. Naquela ocasião Obama declarou a Venezuela “uma ameaça fora do comum e extraordinária para segurança nacional dos EUA”.

 

A nova agressão adotada por Trump, catalogada de “aberrante” pelo General em Chefe e Ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, é uma transposição velada para o nosso continente da confrontação geopolítica que os EUA vêm desenvolvendo contra a China e a Rússia. Isso fica claro quando o Secretário de Segurança, John Boulton, reforçou a decisão de seu chefe, dizendo: “Estamos dando este passo para negar o acesso de Maduro ao sistema financeiro global e para isolá-lo internacionalmente, mas também –isso é muito importante – estamos enviando uma mensagem para que terceiros, que queiram fazer negócios com o regime, atuem com extrema cautela”.

 

Os recentes protestos em Hong Kong, na China, que de pacíficos partiram logo para o vandalismo e o terrorismo, como tem acontecido na Venezuela, provaram que a Alta Comissionada da ONU para os Direitos Humanos, a ex-presidenta chilena Michel Bachelet, é de fato uma marionete nessa política de agressão imperialista dos EUA. Algumas semanas atrás, ela tinha apresentado um informe contra a Venezuela, cheio de manipulações e mentiras, que foi protestado pelo governo venezuelano. Sem entrar nos longos detalhes de seu conteúdo, esse informe condenando o país apresenta conclusões a partir de 82% de depoimentos obtidos de pessoas que NÃO VIVEM NA VENEZUELA. A má intenção é clara. Pois bem, a senhora Bachelet, que tem guardado silêncio frente a várias situações de violação dos direitos humanos no mundo, se apressou a condenar a suposta repressão contra os manifestantes de Hong Kong, desconsiderando a violência terrorista de vários manifestantes. A resposta do governo chinês foi contundente. Julgou sua postura uma “interferência em assuntos internos” e lhe pediram para que “corrija sua postura equivocada, que equivale a uma indulgência encoberta e apoio à violência e à criminalidade”.

 

A iniciativa de Trump é também um episódio a mais do uso de medidas ilegais, unilaterais e extraterritoriais que o governo dos EUA vem tomando contra vários países, incluída a Venezuela. Neste caso, além de ilegal, é tão desproporcional que o Chanceler venezuelano Jorge Arreaza foi obrigado a sublinhar que “uma medida como a da quarentena e o bloqueio criminal são ações de guerra que devem tomar-se quando um país tem agredido a outro. Somos um país de paz”. Fica claro que se trata de agressão pura. De acordo com o jornalista Humberto Trezzi, esta medida adotada por Trump “não era aplicada a um país do Ocidente há pelo menos três décadas”.

 

Esclarecer e denunciar a maldade e a desproporção dessa nova agressão dos EUA contra a Venezuela, busca sensibilizar e fazer abrir os olhos daquelas pessoas no mundo que têm aceitado, na base da propaganda e da manipulação, a tese um milhão de vezes falsa de que nesse país se vive em “ditadura” e que as dificuldades que atravessa seu povo são consequência de uma “tirania, corrupta e incompetente” que só quer manter o poder.

 

Chama poderosamente a atenção o fato de o governo de Donald Trump anunciar essas sanções poucas horas depois que o mundo recebeu a triste e chocante notícia de mais duas chacinas ocorridas, com poucas horas de diferença, nas cidades de Dayton (Ohio) e El Paso (Texas). Após ficar sabendo do ódio e da xenofobia que motivaram esses assassinatos, Trump se apressou em declarar que “o ódio não tem lugar nos EUA”. Indo além, afirmou que “Nossa nação deve condenar em uníssono o racismo, a intolerância e o supremacismo branco”.

 

Quem lembra seu discurso preconceituoso contra os mexicanos durante a promoção do muro que quer construir na fronteira do México e quem assistiu às cenas de crianças latino-americanas separadas de seus pais e encarceradas em gaiolas como bichos, sabe que estamos na presença da hipocrisia gigantesca de um homem sem escrúpulos, em campanha eleitoral. O povo americano pouco lhe importa.

 

As medidas criminosas contra a Venezuela possuem junto com a tentativa de derrubar um governo, que não se submete a seus interesses, uma inegável carga de ódio e crueldade. Enquanto dizem se preocupar com os direitos humanos do povo venezuelano e de manter aberto um suposto canal humanitário, na prática, eles estão sentando as bases “da asfixia absoluta”, como denunciou Delci Rodríguez, vice-presidenta da Venezuela. Ameaçando a países que pudessem prestar apoio e declarando o bloqueio financeiro total contra a Venezuela, “com que divisas o país vai comprar seus alimentos e seus medicamentos?”, ela se pergunta.

 

O mais “sincero” e “honesto” nessa diplomacia da barbárie foi William Brownfield, ex-embaixador dos EUA em vários países da América Latina, incluída a Venezuela. Para ele, de forma clara e explícita, “acelerar o colapso da Venezuela seria a melhor solução à crise”. Quem não perceba que essa é a verdadeira motivação desses pseudo-ataques de preocupação pela democracia e os direitos humanos do povo venezuelano, continuará mesmo contra sua vontade, contribuindo para legitimar toda essa monstruosidade.  

 

Pense. Cada vez que você der credibilidade a toda essa campanha de demonização mundial contra a Venezuela, terá que acreditar no kit gay do PT, na Ferrari do Haddad, no sítio de Atibaia e no triplex do Lula. Não há meio termo quando estamos enfrentando criminosos, inimigos declarados da humanidade.

 

A Venezuela precisa de toda a solidariedade dos povos irmãos da Pátria Grande e de todos os seres humanos com coração deste planeta. Inclua-se. Com estas novas medidas do imperialismo, a situação já bastante difícil para o povo venezuelano ficará ainda pior. Não é fake. Quem escreve estas palavras é alguém que tem vários anos convivendo, todos os dias, com essa realidade.

 

A solidariedade só é verdadeira se colocada em prática de forma sincera, onde você possa e queira.

 

No sábado, 10 de agosto, houve uma Grande Jornada Mundial de Protestos contra o Bloqueio de Donal Trump à Venezuela com a hashtag #NoMoreTrump, #NoMásTrump, #NaoMaisTrump. Esse envolvimento mundial foi importante e contundente e desencadeou um abaixo assinado em toda a Venezuela que será entregue a ONU em protesto contra as medidas coercitivas da Casa Branca. Em menos de uma semana já se alcançaram mais de um milhão de assinaturas.     

 

Convidamos a todos e todas a continuarem dando apoio nas redes, nas ruas e paredes, sempre atentos aos novos desdobramentos e aos ataques que certamente virão. A batalha do povo venezuelano na defesa da vida e da soberania é uma luta de todos nós.

#NoMoreTrump 

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Anisio Pires é venezuelano, cientista social pela UFRGS e professor da Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV) Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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