A eleição presidencial que não terminou

A eleição presidencial que não terminou

Vinte e seis de outubro de 2014 tinha tudo para ser uma data inesquecível. A presidenta Dilma Rousseff foi reeleita, o mercado começava a enxergar alternativas para superar a crise que atingira, indistintamente, as maiores economias do mundo e o Brasil acabara de passar por mais um teste de amadurecimento de sua jovem democracia.

 

No entanto, a confirmação do quarto mandato consecutivo comprometido com a distribuição de renda, o combate à fome e a ascensão da população mais pobre não foi assimilada pela oposição, personificada por um candidato que liderou uma campanha eleitoral rasteira, desrespeitosa e sustentada em factoides.

 

Mesmo após a homologação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral, líderes do PSDB, do DEM e de parte do PMDB seguiram entrincheirados, conspirando, inventando fatos, distorcendo medidas do governo, ajuizando ações improcedentes, votando contra os interesses da população no Congresso e torcendo pelo rebaixamento da nossa economia.

 

Na medida em que a inflação e o desemprego aumentam, consequências do pessimismo disseminado por esses abutres, os sorrisos largos desfilam pelos corredores da Câmara e do Senado. Enquanto eles riem, o cidadão sofre e o país vive uma paralisia jamais vista.

 

Na economia, estamos regredindo. Nosso produto interno bruto (PIB) ficou negativo nos últimos três trimestres e deve fechar o ano com retração de 3,5% - o pior resultado dede 1990. Estamos em recessão. E a Lava Jato tem contribuído, sobremaneira, para a diminuição da atividade econômica. Segundo estudo feito por uma consultoria, a operação deflagrada em mais de duas dezenas de fases pela Polícia Federal pode tirar mais de R$ 140 bilhões (cerca de 2,5% do PIB) da economia. O levantamento leva em consideração a redução de investimentos da Petrobras e do setor de construção civil e ainda contabiliza as perdas no valor bruto da produção, nos empregos, nos salários e na geração de impostos.

 

Reconheço a importância da Lava Jato para a redução da impunidade, o aprimoramento da nossa legislação e para que a máquina pública tenha mais eficiência e recursos para investimento em áreas como saúde, educação e segurança. Porém, precisamos assegurar que o combate à corrupção não prejudique a economia e não obstrua o crescimento do país.

 

Na democracia, podemos retroceder. Ao autorizar a abertura do processo de impeachment de Dilma, Eduardo Cunha agiu nitidamente em interesse próprio. O presidente da Câmara Federal é investigado na Lava Jato. Pesam sobre ele documentos enviados pelo Ministério Público da Suíça que provam a existência de contas milionárias em seu nome naquele país.

 

Cunha, sim, tem conduta suspeita. E, mesmo assim, tem atuado nas brechas da legalidade para executar seu projeto de poder e servir aos interesses golpistas da oposição. Sua permanência na presidência e no exercício das prerrogativas que o cargo lhe confere macula a imagem do parlamento brasileiro e abala nossa credibilidade no cenário internacional.

 

Os artífices do golpe insistem no argumento de que a presidenta cometeu crime de improbidade pelo simples fato de ajustar o orçamento à necessidade de manutenção de programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Dilma não desperdiçou nem desviou dinheiro público. É uma pessoa que jamais se ajoelhou diante de seus algozes.

 

Agora, mais do que nunca, é imprescindível garantir que a Constituição Federal seja respeitada. Precisamos nos abraçar na defesa incondicional da democracia, um bem que não tem preço e cuja edificação custou vidas e traumatizou gerações. Temos de acelerar esse processo descabido e acabar, de uma vez por todas, com qualquer possibilidade de atentado à democracia e de ruptura de avanços civilizatórios.

 

Não podemos deixar que parlamentares oportunistas, inconsequentes e sedentos pelo poder destruam um legado de décadas. A presidenta foi eleita por mais de 54 milhões de brasileiros. Não pode ser deposta por um levante endossado pelo Congresso Nacional.

 

Parafraseando a obra-prima do imortal Zuenir Ventura, o dia 26 de outubro de 2014 ainda não terminou. A não aceitação da derrota nas urnas desencadeou uma grave crise política que potencializou nosso descompasso econômico e gerou uma atmosfera insuportável.

 

Num momento desse, prefiro ficar do lado do povo brasileiro, da Constituição Cidadã, dos governadores contrários ao impeachment, de juristas respeitados como Dalmo Dallari, do otimismo e da esperança de que nosso maior patrimônio - a democracia - seja preservado a qualquer custo. E você, de que lado está?

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Ana Perugini é deputada federal pelo PT, integrante das comissões de Educação, Licitações, Minas e Energia e da Crise Hídrica. É também coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa da Implantação do Plano Nacional de Educação (PNE) e da Criança e do adolescente, no Estado de São Paulo. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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