Alexandre Padilha: É agora Lula, ajude o Brasil a sonhar de novo!

Alexandre Padilha: É agora Lula, ajude o Brasil a sonhar de novo!

Nesta semana, o colunista da Rede PT Alexandre Padilha analisa a força política de Lula e fala sobre seu depoimento ao juiz Sergio Moro, em Curitiba, como testemunha de defesa. “Nenhuma pergunta me foi feita pelos acusadores sobre o tal tríplex, seus donos, se alguma vez vi, ouvi, soube se Lula e Dona Marisa o compraram, se planejavam comprar etc. Está mais do que claro que quem o acusa, já não tinha provas, agora não tem testemunhas que tragam alguma evidência, talvez nem mais convicção”, diz.

Poucas vezes percebemos que temos a oportunidade rara de conviver com uma figura que tem papel duplo na história e também na conjuntura nacional. Lula é assim. Aconteça o que acontecer com Lula, compreender o que seu nome representa já é obrigatório a quem estuda a história brasileira e, em certa parte, a quem se dedica à esquerda na América Latina e no mundo. É preciso analisar o que significou sua liderança sindical popular, o partido que ajudou a criar e liderar e a sua eleição para a Presidência da República. O período em que ele governou o país, segundo estudos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) – para não citar instituições que podem ser cunhadas de petistas, bolivarianas, comunistas, esquerdistas etc –, foi o melhor da economia brasileira, o único com a combinação inédita de estabilidade econômica, crescimento, inclusão social e reposicionamento do Brasil internacionalmente.

 

Também é fundamental levar em conta tudo o que Lula significou para a esquerda latino-americana e sua inspiração para governos populares. Sua luta mundialmente reconhecida no combate à fome. A “babação” de ovo de um presidente dos Estados Unidos, como fez Obama, algo inédito para a nossa nação que cultivou por séculos um complexo de vira lata. Há ainda o bloco social, político e econômico que construiu ao longo do seu governo. Virão estudos e mais estudos de como descrevê-lo. E outros fatos mais que estão por vir desse experiente, mas cada vez mais rejuvenescido bisavô, que venceu um câncer e hoje caminha acelerado diariamente e mantém uma pressão arterial de 110×70 após o exercício. Até quem o odeia ou o despreza, será obrigado a dedicar um pouco do seu tempo e têmporas para entender o Brasil e encontrar alguma descrição que satisfaça sua versão da história.

 

Ao mesmo tempo esse Lula, que já é história, ainda é um ator decisivo da conjuntura. É inegável que parte do amálgama que consolidou a aliança econômica-política-midiática-jurídica-social, criou, incendiou, cometeu e busca sustentar o golpe, o fez pelo receio de Lula suceder a Dilma. E é inegável que uma parte atual dos seus cálculos são exatamente o que fazer com Lula? Ou, o que pensa Lula? Ou, o que fará Lula? Não à toa, o atual prefeito de São Paulo vez ou outra estoca de forma desrespeitosa Lula, porque sabe que repercute mais nacionalmente do que seus factoides de largada.

 

A véspera do carnaval estive frente a frente com o juiz Sérgio Moro e os membros do Ministério Público de Curitiba, arrolado como testemunha de defesa do presidente Lula no processo conhecido como “tríplex” do Guarujá, aquele do PowerPoint. Nenhuma pergunta me foi feita pelos acusadores sobre o tal tríplex, seus donos, se alguma vez vi, ouvi, soube se Lula e Dona Marisa o compraram, se planejavam comprar etc. Está mais do que claro que quem o acusa, já não tinha provas, agora não tem testemunhas que tragam alguma evidência, talvez nem mais convicção. As perguntas passam por aquilo que dizem: o conjunto da obra.

 

“Ex-ministro, quando o senhor se filiou ao PT? O senhor participou da coordenação de campanha do ex-presidente Lula alguma vez? Quando o senhor era ministro da Coordenação Política, os deputados lhe pediam para indicar pessoas para cargos no governo? Cada uma dessas indicações era levada para o presidente Lula?”, foram algumas questões.

 

Às vezes tenho dúvidas do que estes senhores imaginam ser o cotidiano de um Presidente da República, ainda mais de Lula, para supor que ele ficava acompanhando tudo quanto é indicação ou nomeação de pessoas no governo. Aliás, Fernando Henrique Cardoso já o inocentou também para a banca de Curitiba. “Nem tudo o Presidente sabe ou acompanha”, cravou FHC. Aliás, se assim fosse, aí sim teria algum sentido acabar com tudo quanto é ministério, diretorias de empresas e agências, se alguém supõe que seja possível ou adequado que um presidente acompanhe todos estes órgãos no detalhe.  A busca de Lula!

 

Quase ao final do depoimento, o juiz Sérgio Moro começou a fazer perguntas surpreendentes a mim, uma testemunha de defesa de um processo sobre propriedade não provada de um apartamento no Guarujá. Queria saber se, quando ministro da Coordenação Política (entre 2009 e 2010), o Presidente Lula conversava, orientava, comentava algo comigo sobre a ação penal conhecida como “Mensalão”, cuja crise acontecera quatro/cinco anos antes. Respondi a ele claramente que não, nunca. A determinação era que nada que não fosse estritamente institucional poderia ser feito naquele Palácio. E sabe por que não? Porque tínhamos um país para governar, a maior crise econômica da história do capitalismo internacional (2008/2009) a enfrentar. Lula falava e orientava, sim, sobre como mobilizarmos os empresários e trabalhadores do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, junto com o ministério da Fazenda, para encontrar soluções para manter o crescimento econômico no Brasil, para que nossa economia e o povo trabalhador e mais pobre não sofressem com a tempestade mundial. Falava da importância de aprovarmos o marco regulatório do pré-Sal, porque se não, o governo Dilma não conseguiria aprová-lo.

 

Falava de como tínhamos que aprovar o Estatuto da Igualdade Racial, as leis complementares para o Minha Casa Minha Vida, o novo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), as novas universidades, os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o orçamento para o último ano de governo, algo que conseguimos de forma inédita. Falava de como mobilizar prefeitos e governadores para acelerarem as obras do PAC, como medida para manter os investimentos durante a crise. A importância de mobilizá-los para a agenda internacional, junto ao Mercosul/Unasul, BRICs, a Cooperação com a África. Não ficávamos presos à agenda dos outros.

 

Digo isso porque ninguém aguenta mais, nem o país sobrevive a uma pauta política que mais parece àqueles antigos discos compactos que só tinham duas músicas, uma do lado A e outra do lado B. A do lado A, um país que só discute como cortar investimentos públicos, políticas sociais, fechar empresas e agências, vender ativos e poços nacionais. Onde a política econômica e o projeto de desenvolvimento se resumem a ajuste. E sempre contra os mais pobres e vulneráveis, como acaba de cravar o New York Times, tão insuspeito quanto a FGV. O lado B, a crise permanente de um governo repleto de encrencados na suruba há décadas e uma crise institucional de poderes e seus personagens que não sabem propriamente como conduzir o golpe que criaram. A grande imprensa de manhã é lado A, de tarde, lado B e vice-versa. Estão assim o Congresso, partidos, ativistas, militantes, movimentos.

 

Está mais do que na hora de criarmos o palco, a tela, o ponto de acesso à internet para esta figura da história e peça-chave da conjuntura, para este Lula dizer: “Sim, é possível mais uma vez superar a crise econômica no Brasil, sem jogar na conta dos mais vulneráveis”. Desta força da história, que tem sensibilidade e paciência para escutar a todos. Que tem o primeiro lugar nas pesquisas de opinião para presidente.

 

Sim, é possível avançarmos mais na inclusão social do que avançamos no período dos primeiros governos Lula, porque o povo brasileiro já experimentou que tem como. Sim, é possível superarmos, com mais democracia e mais política, este momento que escancara e coloca em xeque todo o establishment político. Sim, é possível o Brasil voltar a ser respeitado no cenário internacional. Sim, é possível desenvolver uma luta árdua, permanente contra a corrupção, sem seletividade, sem messianismo, sem desrespeitar nossa Constituição, sem quebrar nossa economia. Sim, é possível o filho do pedreiro voltar a sonhar em ser doutor. O Brasil precisa de outra música. Ter projeto de país, de futuro, apostando naquilo que temos de mais valioso no presente: o nosso povo.

 

A semana após o Carnaval já começa com um amplo manifesto pró-Lula. Que não fique só nisso. Só Lula pode ajudar a juntar todos que assinam o manifesto e conversarmos sobre as saídas para o país. Juntar os sem-teto que ocupam há dias a Avenida Paulista, o movimento sindical que sacudirá o Brasil no dia 15/3 para barrar o fim da aposentadoria, as mulheres que reforçarão a luta internacional e, no Brasil, a luta por uma previdência pública e justa, no dia 8 de março. Os movimentos que em 31 de março não nos deixarão esquecer o que foi a ditadura, mais importante do que nunca nos tempos de hoje. Os partidos do campo democrático popular, que deveriam parar de ficar remoendo questões menores e focar na importantíssima agenda da resistência. Vamos construir e mostrar por que queremos interromper já o golpe e permitir que o povo possa decidir sobre um novo governo para o país.

 

Juntar os que já se indignavam e os que agora se indignam com as conduções coercitivas sem respaldo na lei, como a de Lula. Os que ficam indignados com o assassinato do menino João Victor, por funcionários do Habib’s. Juntar para elaborarmos propostas sobre o Brasil que queremos. E Lula deveria começar pelo Nordeste, às margens da transposição do Rio São Francisco, para conversarmos que outra região e, consequentemente, outro Brasil podemos querer com as novas águas.

 

Os desafios do Brasil de hoje são outros, mas Lula já está na história ao mostrar que foi capaz de superar o que era improvável. Dia 3 de maio está marcado o interrogatório do Presidente Lula, pelo juiz de primeira instância de Curitiba. Se desde já, juntos com Lula, mobilizarmos e retomarmos o debate sobre como fazer o Brasil crescer, incluindo o seu povo, reduzindo a desigualdade e ampliando a diversidade, será um encontro histórico. Entre aqueles que se agarram ao mesmo disco riscado na vitrola, desde novembro 2014, e aqueles que podem liderar a troca do disco e a retomada de um novo ciclo virtuoso para brasileiras e brasileiros.  Acabou o Carnaval.

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Alexandre Padilha é médico infectologista, foi ministro da Coordenação Política de Lula, da Saúde de Dilma e secretário de Saúde da gestão Fernando Haddad. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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